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Trombadas perigosas (ou não)

Haisem Abaki

18 de outubro de 2013 | 23h17

Todos os dias, em razão da minha opção de ter deixado de ser um “carrólatra”, me transformo em passageiro no Terminal do Tietê. É um lugar onde tem muita gente que anda sem olhar pra frente e vira repentinamente para os lados sem dar seta. Os riscos de colisão frontal, lateral e atropelamento por malas são mais certos do que os horários de partidas e chegadas.
Já faz tempo que “ando querendo” falar sobre isso. Todas as atenções estão voltadas para a palma da mão e não se enxerga nada que esteja a mais de um palmo do nariz. O grande culpado é o celular, aquele aparelhinho que também serve pra fazer e receber ligações.
Uma vez, um sujeito com jeitão de ônibus-leito veio na minha direção com os olhos fixos no visor do brinquedinho. O cara carregava uma mochila, uma bolsa do tipo tiracolo e um violão. Não faço uma descrição melhor porque não sou detalhista. Parecia que o rapaz tinha combinado um encontro e se comunicava com alguém por torpedo ou por um desses aplicativos de bate-papo. Andava digitando e se virava para um lado e para o outro à procura de sabe-se lá quem.
Tentei desviar para um canto e quase levei uma “mochilada”. Fui para o outro e a “bolsada” passou perto. Então, resolvi esperar a definição do “adversário” para não correr o risco de tomar uma “violonada”. O desajeitado indeciso percebeu a situação e soltou um “foi mal”, que eu respondi com o polegar levantado em sinal de “positivo”. Nada de falar com estranhos…
Mas deu vontade de perguntar se o cara precisava de mais espaço naquele terminalzinho e se eu estava atrapalhando alguma coisa. E ele seguiu em frente, como se fosse a única alma presente ali, o senhor do pedaço. Ainda bem que foi passageiro. E tchau.
Poucos metros adiante, sem querer, sem querer meeeeesmo, vi uma garota sedan versão completa, com todos os itens de fábrica e mais alguns acessórios. Também veio na minha direção sem tirar os olhos do celular. Carregava uma bolsa que aqui vou chamar de “bolsa de mulher” e puxava uma mala lilás com rodinhas. Estava com calça jeans justa (o mundo precisa de pessoas justas), uma blusinha bem feminina que aqui vou chamar de “blusinha bem feminina branquinha” e uma jaqueta marrom, que combinava com as botas da mesma cor. Só não faço uma descrição melhor porque não sou detalhista e não reparei direito na moça.
Aquelas mãos delicadas com unhas pintadas de vermelho que mal consegui notar estavam ocupadas. A direita digitava no celular e a esquerda puxava a mala. Ela também parou de repente e começou a virar para os lados, como se estivesse procurando alguém.
Num primeiro momento, quase levei uma “bolsada”. Depois, as rodinhas da mala deslizaram perigosamente rumo aos meus pés. Então, resolvi esperar a definição dela, “tadinha”. Não se pode tratar uma pessoa que cruza o seu caminho como “adversária”. A gente precisa entender que “a ser humana” às vezes passa por dificuldades. É absolutamente normal…
Docemente indecisa, ela percebeu a situação, sorriu e soltou um “ai, desculpa”, que eu respondi com um “não tem problema, fica tranquila”. O planeta está carente de mais diálogo. Um gesto pode ser mal interpretado… As pessoas não conversam mais…
Deu vontade de perguntar se ela precisava de ajuda e de mais espaço naquele terminalzinho. Achei que eu estava atrapalhando e dei caminho. Gentileza é outra coisa em falta… Sempre pensei assim… E a moça seguiu em frente, como se fosse a única alma presente ali, a dona do pedaço. E não é que não tinha mais ninguém lá? Nunca havia visto aquele lugar tão vazio. Ah, como a vida é passageira… Passageira até demais… As pessoas precisam se importar mais com o bem-estar das outras. Será que a viagem foi boa? Chegou bem? Então, tchau. Tchau, então… É, talvez eu leve uma “bolsada” depois dessa, mas não vai ser no Terminal do Tietê…

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