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Tributo a um amigo declarado

Haisem Abaki

26 de abril de 2013 | 17h04

A vida selvagem em meio ao concreto é tão competitiva e cheia de armadilhas que não deixa as pessoas perceberem pequenos gestos de bondade, muitas vezes bem pertinho, ao alcance dos olhos. Sim, o lado bom da força ainda existe. É só prestar atenção.
Comecei a fazer isso e, aos poucos, notei que fui deixando de ser um reclamão de tudo. No gerúndio mesmo, porque este é um processo ainda em andamento e preciso ficar sempre vigilante para não cometer injustiças com quem é tão benevolente comigo.
Descobri que tenho alguém que me valoriza, até muito mais do que mereço. Alguém que sempre me coloca pra cima, como se eu fosse um sujeito muito importante. É um incentivo tão forte e marcante que é capaz de aumentar o meu rendimento em tudo o que faço, desde o despertar, de madrugada, até o descansar, quase de madrugada.
Esse companheirão inesperado possui a capacidade de enxergar valores substanciais à vida que eu, insensível, não consigo ver e muito menos dimensionar corretamente. A atitude dele é tão nobre, mas tão nobre, tão nobre mesmo, que só me enriquece mais e mais a cada dia. É como se eu tivesse uma fonte inesgotável de recursos.
Às vezes penso que esse fã tão obcecado por mim exagera ao me dispensar tamanho reconhecimento. Eu não sou tudo isso que ele leva em conta, muito em conta, totalmente em conta mesmo. Acredito até que esse parceiro faz de conta que é tudo verdade, só pra eu me sentir extremamente recompensado.
É tão preocupado com o meu bem-estar que, além vigiar e zelar pelo meu trabalho, espicha o olho para saber se está tudo bem com a minha família, se somos todos felizes, se fomos ao médico e ao dentista, se as crianças são bem-educadas e se estamos poupando para o futuro.
Para ele, é tudo digno de nota, muita nota, bota nota nisso mesmo. O amigão só quer nos ver bem porque o nosso bem é o bem dele e, juntando tudo, isso resulta em bens, muitos bens, bens demais mesmo.
Se depender desse meu chapa, eu estarei sempre no lucro, muito lucro, imenso lucro mesmo. É certo que a vida nos deixa retidos naquelas horas de abatimento e o grande amigo entende esses momentos. Compreensivo, dá um desconto, mas só um desconto, um descontinho de nada mesmo.
É mais ou menos nessa época do ano que ele aparece e marca presença com aquele rugido amoroso, muito amoroso, excessivamente amoroso mesmo. No fundo, apesar da juba pomposa, o rei da selva tributária é apenas um miau pedindo carinho, muito carinho, carinho de montão mesmo. Cobrar carinho é a grande receita dele.
Não sei se esse bicho que tanto me superestima é sempre assim ou se, vestido com malha fina, vira mansinho diante de feras poderosas. Espero que não fique bravo comigo. Não estou fazendo acusações, apenas deduzindo o que posso, só o que posso, o pouco que posso mesmo. E nada mais tenho a declarar.
Só mais uma dúvida: se eu lhe der uma escova e mandá-lo pentear macaco, pode ser abatido como doação? Ou serei abatido a mordidas?