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Transpiro e suspiro

Haisem Abaki

30 de outubro de 2015 | 10h02

– A única certeza na vida é a morte… Eu não vou deixar de fazer churrasco!

– Pois eu tô dando uma diminuída. E não é por causa da OMS. É porque tá muito caro mesmo.

Ouvi o diálogo ao ultrapassar dois caras que faziam caminhada no parque. Pelo jeito, falavam sobre o alerta da Organização Mundial da Saúde para o risco de câncer por culpa da carne, da linguiça, do presunto, do bacon…

Faltava pouco para eu concluir os dez quilômetros e aumentei o volume da música pra me concentrar na corrida e não escutar mais conversas paralelas. Mas nem prestei atenção no que tocava. O pensamento me levou para uma manhã de domingo qualquer na infância e na adolescência.

A cena se passava sempre na cozinha. Eu acordava e ainda com sono via meu pai num ritual lento e minucioso, “limpando” a carne fio por fio e moendo várias vezes até atingir a mais perfeita perfeição. A redundância é a única maneira de explicar como aquilo ficava.

Ao lado, em cima da pia, havia uma bacia com trigo de molho. E também estavam por perto uns punhados de sal, salsinha, cebolinha e hortelã, eu acho. Ele acordava bem cedo e o preparo durava quase a manhã inteira, até o arremate numa travessa banhada de azeite e enfeitada com cebolas. O pão sírio só ficava à espreita, aguardando o grande momento. Tudo com as mãos, com exceção da colher que levava aquela delícia para o prato.

Nenhum quibe cru era igual ao do “turco”. Nem o da minha mãe, ela mesma reconhecia. Depois que ele partiu tive vontade de comer umas três ou quatro vezes num restaurante. É… Bonzinho. Só isso.

É que a diferença não estava só na perícia e no carinho com o patinho moído. Era a conversa. Quase sempre começava com um “bresta atençón no qui ieu vai falá”. Dizia que o importante era o equilíbrio entre carnes, verduras, legumes, frutas, trigo e pão. E, magro a vida toda, receitava “boa alimentaçón, oraçón e ginástica bara cuidar da corbo e do alma”. Mas deixava claro que de vez em quando dava “bra comer uma doce bara o vida num ficá munto chata”.

Nessas ocasiões, por repetidas vezes, eu também ouvia o conselho de “fazer as bazes e nunca dormir bravo cón ninguén, borque faz mal bara a gente”. Isso sem contar orientações jornalísticas, um pouco de doutrinação socialista e, olhando bem nos meus olhos, a recomendação de “nunca, nunca, nunca desiste das suas sônios e luta contra todas as broblemas cón munta fé”.

Já estava saindo do parque e só “acordei” quando o semáforo abriu para os pedestres. Atravessei e, como de costume, entrei numa “quitanda gourmet”. Quando eu chego os funcionários já sabem: um coco gelado, por favor! Fiquei ali, todo suado, tomando a água e olhando em volta: abacaxi, mamão, melão, melancia, uva, maçã, pera, amora… Escolhi um pacote de suspiro! Aquele feito com clara de ovo, “bara o vida num ficá munto chata”.

E no caminho de volta decidi não desistir de um sonho que deixava o “turco” muito feliz. Antenados de plantão, segurem a curiosidade aí. Não sei se morrerei de doença, de tanto correr, de muito pensar, de radiofonite crônica, de paixonite aguda ou de palmeiricídio. O negócio é viver a vida ao ponto. Nem mal passada, nem bem passada. Vou até o último suspiro. O de ar, porque o da clara, claro, já acabou.

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