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Tímido, exagerado e nada sutil

Haisem Abaki

29 Maio 2015 | 10h46

No consultório médico, encontro um velho amigo que não via há tempos, acho que desde mil novecentos e fernando henrique cardoso. Ou teria sido em dois mil e lula? Já nem sei mais. De cara, vai um esclarecimento: estávamos no urologista, o que não significa absolutamente nada. A informação a seguir também é irrelevante para a história que será contada. Ele ia passar por um exame na próstata e brincava com a situação. Depois, viu que eu só fazia ali o papel de acompanhante, esperando do lado de fora. Não que eu tenha algum problema em relação ao tema, apenas não foi dessa vez. Então, prosseguindo…

O antigo conhecido, agora meu ouvinte diário no rádio, puxa assuntos do nosso passado e logo tasca um comentário que me marca desde mil novecentos e josé sarney, quando comecei a trabalhar no assustador microfone.

– Cara, quando eu te ouço nem acredito que é você… Parece outra pessoa. Você era um p… moleque tímido, quieto, não falava com quase ninguém! O que você fez, meu?

Dei a resposta de sempre, já que todo mundo que me conhece vem com essa pergunta.

– Nada, continuo tímido.

Aí fui sincero dizendo que também não sei a explicação. A luz que indica que estamos no ar acende e eu falo. Simples assim. Mas, pela primeira vez, pensei que talvez fosse o caso de aprofundar isso na terapia. Meu amigo interrompeu a reflexão.

– Lá na escola tinha gente que desconfiava que você fazia tipo só pra chamar a atenção das meninas. Tem mulher que gosta de homem tímido.

Achei engraçada a conclusão e acabei percebendo que, apesar de não ser encenação, digamos assim, me dei bem algumas vezes sem precisar fazer o angustiante esforço de falar muito. Meu já impaciente companheiro de bate-papo foi chamado para o exame e não nos vimos mais.

Fui embora pensando nas palavras dele e notei que meu travamento sempre foi seletivo. Só acontecia – e ainda acontece – quando estou diante de alguém que é muito importante pra mim. A “descoberta” foi tão impactante que em casa resolvi ouvir Timidez, com o Biquíni Cavadão. Sou eu ali, em meu estado mais puro. Eu carrego comigo a grande agonia/De pensar em você, toda hora do dia/Eu carrego comigo a grande agonia/Na verdade nada esconde essa minha timidez/Na verdade nada esconde essa minha timidez. Na época eu ainda tinha cabelos compridos que insistiam em balançar na hora da repetição desse último verso.

Mesmo sofrendo pra valer com a tal timidez, eu conseguia virar a página e trocar de música. O problema era falar. Só que depois a coisa fluía naturalmente. Foi quando alguém especial disse que meu comportamento era parecido com o do Exagerado, do Cazuza. Não me identifico com aquela parte de roubar e matar, mas sou eu na letra. Com as mentiras também não, só que as mancadas estão todas inclusas. Exagerado/Jogado aos teus pés/Eu sou mesmo exagerado/Adoro um amor inventado. Ah, e também acredito em destinos cruzados, não só na maternidade, mas no trabalho, na faculdade, no metrô, seja onde for…

E, passadas as fases Timidez e Exagerado, eu me transformo em Sutilmente, do Skank. Sempre fui assim, mas isso se agravou depois de uma perda ainda muito doída, do meu pai. E quando eu estiver triste/Simplesmente me abrace/E quando eu estiver louco/Subitamente se afaste/E quando eu estiver fogo/Suavemente se encaixe.

E consigo “piorar” ainda mais. E quando eu estiver bobo/Sutilmente disfarce…/Mas quando eu estiver morto/Suplico que não me mate/Dentro de ti/Dentro de ti.

E a vida parece querer me fazer repetir a dose depois de véio. Mas não reclamo da trilha musical. Posso fazer tudo de novo, sem medo de errar… Devia ter agradecido ao antigo colega pelo toque. Refiro-me ao toque sobre a minha personalidade, tímida, exagerada e nada sutil. Mas o cara do microfone sou eu mesmo, tá?