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Teve jogo da Seleção?

Haisem Abaki

05 Agosto 2016 | 11h27

Cena 1, de 40 anos atrás. Eu, aos 12 anos, em 1976, impaciente durante uma missa em noite de jogo do Brasil contra o Uruguai no Maracanã. São Google acaba de me informar que a partida pela Taça Atlântico ocorreu em 28 de abril daquele ano. Dois a um para o Brasil, mas minha maior lembrança foi a briga generalizada após o apito final. Ramirez correndo atrás de Rivelino, que caiu de bunda e foi escorregando escada abaixo no túnel do vestiário.

Moleque louco pela Seleção, fiquei ansioso durante a missa, que fazia parte de uma celebração da escola em que eu estudava. Acho que foi perto da Páscoa, na Igreja do Carmo, no centro de Mogi. Queria ir embora logo para ver o jogo. Até rezei o Pai Nosso mais depressa, atropelando as palavras.

Cena 2, de 04 de agosto de 2016, também conhecido como ontem. Eu, aos 52 anos, correndo tranquilamente num parque em tarde de jogo da Seleção Olímpica contra a África do Sul. Fiquei surpreso com a minha própria indiferença. Foi a Cena 2 que me trouxe de volta a lembrança da Cena 1.

O que mudou para eu ter me transformado neste desalmado “traidor” da pátria em chuteiras? Sei que essa falha de caráter não é só minha, mas não vou comentar nada porque penso que aqui não é o lugar. Que a discussão fique para teses acadêmicas e mesas-redondas. Não gosto de debates simplistas sobre a chamada “alienação do futebol”. Ver 22 caras correndo atrás de uma bola nunca me impediu de ter consciência política. E tenho amigos muito politizados que usam sempre a mesma roupa em dia de jogo importante, como superstição para “ajudar” o time do coração. E às vezes o coração fica na cueca.

Na verdade, estava em dúvida se acompanharia a partida ou se iria correr. Talvez assistisse se o Prass não tivesse se machucado. Quis arrumar um “cúmplice”, mas minha versão melhorada, de 13 anos, disse pelo telefone que iria justamente ao parque com dois amigos. Ele preferia ver apenas o jogo do Palmeiras à noite. E lá fui eu ao encontro do moleque, aproveitando para fazer uma corrida de uns 12 quilômetros.

Gansos e patos estavam sossegados no lago. Cachorros levavam os donos pra passear despreocupados, já que não havia rojão algum pra lembrar que transcorria um jogo de futebol. E tinha gente correndo, caminhando e andando de bicicleta. Muita gente até, para um fim de tarde com a nação boleira em campo pela Olimpíada disputada em nossa terra.

Mas nem tudo estava em paz. Bandos de meninas e meninos corriam para todos os lados e o meu estava lá no meio da agitação. Era a caça aos pokémons. Meu caçadorzinho preferido me mostrou um dos monstros, que “corria” ao meu lado.  Passando perto de um quiosque, vi dois adolescentes numa frenética busca “pokemonística”. Ao me afastar, ouvi um deles ter uma vaga lembrança de um acontecimento.

– Tem jogo do Brasil hoje?

O outro não soube responder e os dois seguiram na aventura, sem se importar com Neymar e companhia.

Mais tarde, meu implacável “pokemonólogo” me apresentou o placar: 36 monstrinhos capturados.

– Pai, foram oito no condomínio, três na escola e 25 no parque.

– Na escola?

– Foi no recreio…

– Ah, tá.

– A professora não deixa levar o celular no banheiro.

Sim, vou ficar de olho para evitar exageros “pokemonescos”. Mas deixo aqui meus agradecimentos ao capitão desse timaço pelos momentos de ouro que nos proporcionou. Esse cara de amarelo é dez! Pika!