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Tenho nome de terrorista

Haisem Abaki

20 Novembro 2015 | 10h11

E aí, gostaram do título? Impactante? Chamou a atenção? Foi de propósito, já que estamos vivendo tempos de pré-julgamentos. Século 21, né? Modernidade, tecnologia… Já não era para sermos mais tão medievais. Somos medievais midiáticos. Todo mundo “sabe” de tudo, consome o fast food da “informação” e opina mais “fastfoodicamente” ainda. Uma leitura superficial é suficiente para conclusões definitivas. É só passar os olhos e disparar a “análise”.

Então, aqui estou para fornecer mais munição aos espíritos “desarmados”. Adianta dizer que o terrorismo não é religioso, como muitos imaginam? Ou que não é étnico? Nem geográfico? Pensar dá um trabalho danado… É mais fácil partir para o estereótipo de uma vez. Terrorista é muçulmano, árabe (ou filho de) e vive no Oriente Médio (ou treinou lá).

Claro que grande parte desse “conceito universal” é culpa dos próprios terroristas. Os caras cobrem suas atrocidades pelo mundo afora com um manto chamado Estado Islâmico, se “identificando” com uma religião, um povo e uma região. Mas seriam reprovados em qualquer aula de Islamismo para criancinhas que ainda estão aprendendo a falar baba (papai) e mama (mamãe).

A visão torta dos fanáticos não condiz nem com o próprio nome da religião que dizem seguir. “Islam”, na tradução literal, significa “paz”. E tem também o sentido de “submissão a Deus”. Aliás, aí entra outra confusão. É Deus mesmo e não Allah. Sim, porque Allah é, simplesmente, Deus em árabe. Não se trata de outro Deus. É exatamente o mesmo cultuado no Ocidente de gente esclarecida. Por esse raciocínio distorcido, que tal então chamar God de outro Deus também? Nesse caso seria o Deus dos ingleses e americanos?

Não nos enganemos mais com os terroristas doidões. Muito mais do que religioso, o fanatismo deles é por poder, território, petróleo e armas. Resumindo: dinheiro. E, claro, uma “relaxada” para as perversidades com as mulheres que “usam”. São a minoria de uma seita chamada wahhabita, que já é uma minoria derivada dos sunitas. Os wahhabitas são extremamente conservadores, mas não saem por aí matando. Ou seja, os adeptos do terror, apesar do alto poder de destruição, são a minoria de uma minoria. Maomé nada tem a ver com eles.

É óbvio que o tal Ocidente também tem boa (ou má) parcela de culpa com políticas de dominação e de incentivo ao ódio, ora apoiando ditadores “amigos”, ora elegendo os ditadores “inimigos” como representantes de Satanás, dependendo da quantidade de petróleo na jogada.

Em casa, desde criança, aprendi com meu pai, muçulmano sunita, que as três grandes religiões monoteístas se complementam. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo têm muito mais convergências do que divergências.

E passei dez anos estudando em escola católica, indo à missa e também à mesquita. Sabendo rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria, além das prostrações e dos cânticos islâmicos em forma de mantra. Disfarce ideal para um sujeito com nome de terrorista, não?

A “doutrinação” que recebi de pai e mãe (sem burca ou véu) foi não diferenciar as pessoas por religião, cor da pele, origem, condição econômica, deficiência física ou mental, profissão, sexo, hétero ou homo, grau de instrução, ideologia, time de futebol, fumante ou não fumante, pinguço ou não pinguço… Na verdade, tudo fazia parte de um plano maquiavélico para “blindar” o meu nome de terrorista. Perfeito, não?

O sírio Mohamed (óia, outro com nome clássico de terrorista!) também dizia que a luta dos árabes, especialmente dos palestinos, não podia ser contra o povo judeu. Era contra o governo de Israel. Que danado! Mais uma estratégia para esconder nossas reais intenções com nossos nomes de terroristas.

O lado “bom” de não poder mais conviver com meu pai é saber que ele foi poupado de chorar e se indignar ao ver tanta matança em Paris, Beirute ou em lugares de pouca repercussão, todos os dias, que não geram comoção planetária. Mas eu estou por aqui ainda, tentando seguir um sábio conselho dele: a palavra é a melhor e mais perigosa arma contra a ignorância e a intolerância. Então, modestamente, enquanto puder falar e escrever, vou “aterrorizar” do meu jeito aqueles que acham que se impõem  com bombas, tiros e facões que cortam cabeças. E também os brucutus de redes sociais que não se socializam. Afinal, nesse mundinho de aparências, julgamentos precipitados e generalizações, preciso honrar esse nome de terrorista.