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Tem jeito pra tudo

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h04

Publicado pela 1ª vez em 04/10/2008
Pelo rádio, ouço mais uma vez a fina ironia de Caiã Messina, nosso correspondente no Congresso Nacional:
– Deputados dão um jeitaço na lei que proíbe o nepotismo. Demitem os cunhados, como manda a legislação, mas contratam as mulheres dos dispensados…
A reportagem prossegue e entra uma fala do presidente do Conselho de Ética com uma explicação patética. Docemente constrangido, o deputado Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, deixa claro que não há como punir gente tão apegada aos valores familiares:
– A lei não diz que concunhadas não podem ser contratadas. Então, está dentro da lei. Se está dentro da lei, nós não podemos criar uma punição pra ele por isso, entendeu? A não ser que a gente mude a lei.
O “ele” citado tem nome. É o deputado gaúcho Vilson Covatti, do PP. Ele demitiu dois cunhados e contratou as mulheres dos “desempregados” no dia seguinte. Cada uma com salário de R$ 4.020,00 por mês. O Caiã é muito mesquinho mesmo. Fez questão de registrar os 20 reais, sem arredondar para baixo.
Na sequência, veio a palavra do próprio parlamentar confirmando tudo e até dando os nomes de pessoas tão próximas, que estariam com ele há 13 anos:
– Eu demiti, demiti ambos e contratei, o que não tem nenhuma ilegalidade porque elas não têm nenhum grau de parentesco comigo…
A reportagem termina com o Caiã dizendo que os cunhados demitidos continuam trabalhando informalmente para o deputado e que “por coincidência ou não aceitaram abrir mão dos salários”.
A programação prossegue e vem o quadro “Boas Palavras”, do publicitário Fernando Piccinini. Ele é simpático e divertido como o Caiã Messina e até tem uma pitada de ironia nas mensagens que transmitem otimismo, reflexões e atitudes positivas diante de problemas do dia-a-dia. Como se tivesse combinado uma parceria com o Caiã, o Fernando leu um e-mail enviado por uma ouvinte. Ela dizia que tudo de mais importante na vida havia aprendido no jardim da infância e não na faculdade ou na pós-graduação:
– Não bata nos outros.
– Compartilhe tudo.
– Arrume a sua própria bagunça.
– Leve uma vida equilibrada.
– Aprenda um pouco, desenhe, pinte, cante, dance, brinque e trabalhe um pouquinho todos os dias.
– Tire uma soneca depois do almoço.
– Um copo de leite e alguns biscoitos às três da tarde fazem muito bem.
– Quando sair, dê a mão e fique junto.
– Devolva as coisas ao lugar em que as encontrou.
O Fernando termina imaginando como seria um mundo em que os governantes seguissem essas regras básicas e se despede com o tradicional “bom dia pra você”.
Tudo isso me fez lembrar de uma frase que o Joelmir Beting repete com frequência em seus comentários no rádio ou nos corredores, quando conversamos:
– Em algum lugar, existe um grande estadista. Ele ainda tem quatro ou cinco anos e ainda não sabe disso.
Chegando em casa, fui procurar meu título de eleitor. Meu filho, de cinco anos, brincava com uma bexiga e perguntou para que servia aquilo. Expliquei que precisaria do documento para votar na eleição para prefeito e vereador, no domingo. Bombardeado pela propaganda política dos últimos dias, a segunda pergunta dele não foi “o que é…”, como se esperaria de uma criança dessa idade:
– Por que a gente precisa escolher bem o prefeito e o vereador? Eles fazem o que?
Seriam as dúvidas de um estadista? Pensei bem e confesso que respondi sem muita criatividade:
– Eles tomam conta da cidade em que a gente vive pra todo mundo viver melhor.
– Ah…
– Quer saber mais alguma coisa sobre a eleição?
– Pai, quer brincar de bexiga?
Que alívio! Tive a certeza de que ele terá um futuro brilhante.

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