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Tem agosto pra tudo

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h56

Publicado pela 1ª vez em 23/08/2008
Agosto, mês do desgosto. Não sei quando ouvi esta frase pela primeira vez, mas o fato é que, desde criança, criei uma espécie de cisma com o oitavo mês do ano. A superstição não vinha de casa. Era um comentário que eu ouvia na escola e da boca de fregueses da loja do meu pai.
Mesmo sem ser supersticioso, ele alimentava a suspeita que já me rondava. Meu pai gostava muito de história e de política. Por isso, todo mês de agosto, relembrava o suicídio de Getúlio Vargas e a renúncia de Jânio Quadros.
– Dizem que o Getúlio se matou, mas eu não acredito!
– O Jânio pensou que o povo ia se levantar, mas ninguém pediu pra ele voltar!
Como eu ainda era criança, não me importava muito com esses assuntos. Minha maior preocupação era encontrar um cachorro louco pelo caminho. Não sei se a quantidade de cães sem dono pelas ruas de Mogi era grande naquele tempo ou se era eu que só prestava atenção nisso no fatídico mês.
Um dia, já adolescente, meu temor de menino se confirmou. Estava fazendo uma entrega de pão sírio com meu pai quando um cachorrinho (era pequeno mesmo) me atacou.
– Não corre, fica parado que ele não faz nada. Se você correr ele morde.
Ouvi o conselho do meu pai enquanto esperava o dono da casa abrir a porta. Obedeci e… levei uma mordida na canela direita.
O homem apareceu, pegou o bichinho e me levou para fazer um curativo.
– Vocês podem ficar tranquilos porque ele já está vacinado. Estamos em agosto e eu sempre dou a vacina no começo do mês.
Que sorte a minha, de não ter sido mordido em julho! Fiquei com raiva do meu pai, mas ele me garantiu que a atitude mais correta era não correr mesmo.
Agosto também é o mês do folclore. Na escola, os professores davam aulas sobre o assunto, pediam pesquisas e promoviam exposições. À noite, eu acordava assustado, depois de sonhar com o saci, o curupira e a muuuuula-sem-cabeeeeeeeeça! Em casa, tínhamos a Tereza, uma empregada que mais parecia da família. Ela era mineira e adorava contar histórias de lobisomem, que me deixavam ainda mais apavorado.
Outra data marcante era o Dia dos Pais. Confesso que ficava dividido. Gostava de dar presente e abraçar meu pai, mas ficava incomodado com o choro dele todos os anos. No começo, as lágrimas eram por meu avô distante. Depois, passaram a ser por meu irmão, que se foi num agosto. Mais uma razão para eu não gostar do mês oito e esperar com ansiedade pela chegada de setembro.
Aos poucos, com o passar do tempo, a cisma foi se desfazendo. Não tenho idéia de como e quando isso aconteceu. Acho que foi com o início da carreira de jornalista. Eram tantas as notícias ruins, que comecei a perceber que as desgraças aconteciam todos os meses, todos os dias.
O mal se desfez de uma vez por todas quando encontrei a minha “outra metade”. Ela nasceu em agosto, o mês das tragédias, o mês das convulsões políticas, o mês do cachorro louco, do saci, do curupira e da mula-sem-cabeça.
De vez em quando, tenho saudades daquele menino desgostoso que eu era, apesar dos medos que tinha. Ainda sou meio chato, mas acho que estou a gosto de quem convive comigo de janeiro a dezembro. Fico bravo de vez em quando, mas não precisa correr!

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