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Tão somente só

Haisem Abaki

22 Setembro 2017 | 10h29

Era um fim de manhã de domingo no parque. Já tinha corrido quase 12 quilômetros e estava sentado de frente para o lago, como costumo fazer. Momento de contemplação mesmo, de esvaziar a cabeça e não pensar em nada. Ou às vezes de pensar em tudo ao mesmo tempo. Hora também de tomar sol em obediência à cardiologista que descobriu uma deficiência de Vitamina D e em desobediência à dermatologista que proibiu exageros depois da minha última visita em estado de vermelhidão.

Apesar da habitual distração, percebi alguém me observando como se estivesse em dúvida e aos poucos se aproximando. Ela chegou de mansinho, pediu licença educadamente e se apresentou como ouvinte. Foi muito gentil e simpática, mas não vou repetir suas palavras aqui pra não piorar ainda mais a cor de pimenta da branquela pele em que habito.

– Fiquei olhando e pensando se era você mesmo, sozinho aqui…

Sim, era eu mesmo, sozinho ali. Foi a frase que ficou na cabeça depois de alguns minutos de papo gostoso e da despedida em que ela me disse um “até amanhã”, marcando um novo encontro pelo Rádio. E segui com o meu estado espiritual de entrega ao ócio torrando sob o sol do meio-dia ao lado de patos, cisnes e marrecos.

Dias depois, fui ao shopping para dar uma circulada e não fazer absolutamente nada. E o nada começou quando comprei um pacote de balas de goma de frutas ácidas. Alimento essencial, de primeira necessidade. Andei mais um pouco e parei na frente de uma vitrine para outra contemplação diante de pares de tênis de corrida e de uns sapatênis que pareciam muito oferecidos.

E um novo flagrante estava a caminho. Notei um casal me olhando e vindo na minha direção. O homem pediu licença e perguntou, falando baixinho enquanto a mulher sorria, se eu era eu, o sujeito que ele ouvia de manhã no Rádio.

– Fiquei em dúvida… Você, sozinho, por aqui?

Foi mais uma conversa muito agradável e ao se despedir aquele senhor já falava um pouco mais alto e disse “até amanhã cedo”. Fui embora achando engraçado as pessoas acharem engraçado me ver sozinho.

Engraçado também é ver como pessoas distantes e que não conhecemos podem estar próximas da gente. E como pessoas próximas e que conhecemos bem podem ficar distantes.

A corrida e a contemplação ensinam que é preciso se cuidar e se amar em primeiro lugar. Ensinam também que alguns momentos de solidão não fazem tão mal quanto se pensa. Ajudam na “convivência” consigo mesmo e a ficar longe de situações tóxicas, de atitudes tóxicas e de pessoas tóxicas. Desintoxicar é preciso.

Amarrar o cadarço do tênis e sair correndo por aí é uma estrada cujo destino final é a libertação. Porque tem hora que o melhor de tudo é ficar só. Com a cabeça bem vazia. E com a boca cheia de balas de goma de frutas ácidas. Que elas nunca me deixem sozinho na acidez da existência!