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Suprema Torcida Fanática

Haisem Abaki

20 de setembro de 2013 | 19h48

Sou um cara infringente quando passo perto da padaria. É um raro momento em que me permito descumprir regras alimentares saudáveis que tenho seguido com fidelidade canina. Sem embargos da consciência, entro e peço oito pãezinhos, que carrego dando umas beliscadas pelo caminho. Às vezes, levo algumas companhias para que eles não se sintam sozinhos.
Na última vez, vi o ambiente agitado de sempre e as conversas pareciam as mesmas. No balcão, dois sujeitos discutiam um tema quente e o atendente participava rindo e dando uns pitacos. Cena absolutamente comum esse papo sobre futebol e não percebi de imediato quais eram os times deles.
Mas, à espera da fornada que estava saindo, notei que o assunto, muito mais simplório, se resumia ao julgamento do Mensalão. Fiquei chocado. Como assim? Os caras falavam de “embargos infringentes”! Nada de Corinthians ladeira abaixo, nada de São Paulo tentando fugir do rebaixamento, nada de Santos titubeando, nada de Palmeiras, Avanti Palestra, Dá-lhe, dá-lhe Porco (tá bom, já parei) arrebentando na Série B…
O debate era sobre o placar de 6 a 5 a favor de uma segunda chance para 12 réus. Os companheiros de copo analisavam o voto do ministro Celso de Mello como se estivessem discutindo um lance de jogo, um impedimento, talvez.
O “torcedor” dos condenados dizia que a rejeição dos recursos seria “um golpe contra a democracia”. O “adversário” respondia que “no Brasil o crime compensa e rico não vai pra cadeia”. O rapaz do balcão, coitado, ora parecia concordar com um, ora com outro. Só faltou pedir o replay para ter certeza.
Fui embora impressionado por ter visto pessoas tão “alienadas” que não comentavam nadica de nada sobre o Campeonato Brasileiro. Um monte de jogos e nenhuma cornetada, nenhuma gozação… Que país do futebol é esse? Deixamos de ser 200 milhões de técnicos e agora somos 200 milhões de juristas?
Em casa, fui me socializar nas redes sociais e, surpresa (!), a mesma discussão estava lá. Torcidas organizadas se insultavam, comemoravam e protestavam, cada uma com seu ponto de vista diante do resultado do julgamento.
Até colegas de profissão entraram nos gritos da galera. Gente que influencia a opinião pública (será mesmo?) batendo boca como se estivesse na arquibancada do estádio Supremão. E o mais bizarro foi constatar que a turma usaria os mesmos argumentos, só que em posições invertidas, se o julgamento de agora fosse o do Mensalão do PSDB e não o do PT.
Ah, então é assim? Se marcar impedimento contra o meu time o juiz é ladrão. Se for do adversário a arbitragem está corretíssima. Se o jogador do meu time cai na área é pênalti claríssimo. Se for do rival segue o jogo porque o cara está fingindo.
Por acaso está rolando a bola num “Corinthians x Palmeiras da corrupção”? Se for isso estou “torcendo” contra os dois, até contra o Palmeiras. Cadeia para todos os mensalões ê, ô, independentemente da cor, da camisa e da simpatia.
Ainda sou um bobo que acha que a regra deve valer para todos, para “o corrupto que a gente gosta” e para “o corrupto que a gente não gosta”. Peço desculpas aos meus amigos que tomaram partido. Cada um defendendo o seu “malvado favorito”…
Aos que ainda estão no velho discurso batido da “teoria da conspiração”, vale acionar aquele aparelho chamado “desconfiômetro” e perguntar como pessoas tão desprovidas de recursos financeiros conseguem pagar defesas que custam oito zeros. Isso mesmo: 000.000,00. Não é dinheiro de pãozinho.