As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sonhos “paternolímpicos”

Haisem Abaki

12 Agosto 2016 | 10h58

De tempos em tempos, mais ou menos a cada quatro anos, sempre em períodos próximos a alguma Olimpíada, eu costumava ter sonhos esportivamente esquisitos. Ou seriam esquisitamente esportivos? Não sei exatamente como e quando isso começou, mas foi na infância. Talvez aos 12 anos, na Olimpíada de Montreal, em 1976.

Acho que um dos primeiros sonhos malucos foi com uma maratona. Um sujeito percorria 42 quilômetros por uma cidade antiga, que até hoje não consigo identificar. Passava por monumentos, ruínas e uma multidão nas ruas. E entrava em um estádio olímpico para a glória, muito aplaudido. Ouro para mim! Sim, era eu. Posso até dizer que sou um corredor amador hoje. Consigo fazer, 10, 12, 15 quilômetros, mas nada tão heroico como me parecia no travesseiro.

Sonhos mais “curtos” também já foram comuns. Eram corridas de 100 metros. Tensão na largada, o tiro e uma disparada. E logo tudo estava acabado. Os aplausos da vitória duravam muito mais tempo do que a prova. E o cara vibrava erguendo o braço diante da plateia em delírio. Ouro para mim! Sim, era eu de novo.

Ah, havia ainda um sonho com futebol. Mas esse era mais frequente e também surgia em época de Copa do Mundo. Aparecia um goleiro que pegava tudo. Defesas espetaculares, impossíveis, sobrenaturais. Às vezes também vinha um ponta-direita que destruía as defesas adversárias com seus dribles e só fazia golaços. Os dois craques eram ovacionados pela torcida. Ouro para mim em dose dupla! Sim, era eu de novo e de novo. No gol e no ataque.

Essas bobagens de moleque estavam guardadas em algum lugar da memória e reapareceram agora, depois de outro sonho. Havia um nadador magrelo, na beira de uma piscina. Estava numa das raias do meio, totalmente concentrado. E na hora do sinal caía na água feito um peixe. Ele ganhou três provas: 100 metros, 200 metros e um revezamento. Ouro em dose tripla para esse fenômeno, com narração emocionada e tudo! Só que nessa ilusão noturna da semana passada o Phelps não era eu. Era um carinha parecido comigo, mas na minha versão melhorada.

Contei o sonho para o garoto e ele achou graça do pai bobo. Depois, disse que ia continuar se esforçando na escolinha de futebol para tentar a carreira de jogador, mas que também queria ser engenheiro automotivo. Uns dias antes, a irmã mais velha do rapazinho me falou sobre o desejo de ser assistente social, mesmo sabendo de todos os dramas humanos da profissão.

Agora entendo o real significado dessas duas conversas. Duplo ouro para mim! Eu sou o cara! Um superpai! Puro sonho. Bem acordado, percebi que os méritos são da mãe, que abriu mão dos próprios sonhos para estar mais presente na vida dos dois. O pódio é dela, com medalhas douradas de gratidão. Pensei em tudo isso num lugar onde a vida se encontra com a morte. No cemitério, diante do jazigo do avô deles. O cara que me ensinou a ter sonhos e a lutar por eles. Por mais doidos que sejam e por mais que o mundo diga o contrário. Aos 12 anos, aos 52 e no que mais vier. O ponto final seria esse aí, à esquerda, mas ao fundo ouço Rufus Wainwright cantando Hallelujah. Sempre há motivos para Aleluia!