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Somar, subtrair, multiplicar e dividir é igual a Joelmir

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 15h06

Publicado pela 1ª vez em 29/11/2012
Ouvintes, leitores e telespectadores sempre puderam contar com um sujeito de fala mansa e texto fácil que conseguia transformar a frieza da economia em bate-papo de amigos em torno de uma mesa. Foi ainda garoto e odiando números que, por obra de Joelmir Beting, passei a achar alguma graça neles. A linguagem descomplicada dele me fez “entender” planos econômicos mirabolantes com aquela tradução impecável capaz de atingir em cheio as mentes, os corações e os bolsos.
Uma vez, como repórter que detestava cobrir seminários econômicos, fiquei do começo ao fim de uma palestra dele sem sentir o sono que me dominava nessas ocasiões. O tema? Já saiu da memória… Mas sei que depois ele parou pra passar alguns dados que, com uma dose de ousadia, quis confirmar. Parecia que ele estava falando com “um igual”, embora a conversa fosse de jornalista já consagrado para jornalista com seis, talvez sete anos de profissão naquele início dos anos 90.
Essa história poderia terminar aqui e já seria de profunda admiração. Mas o tempo passou, a economia se estabilizou e virei colega de trabalho do Joelmir na Rádio Bandeirantes. Foram quase sete anos de lucidez e diversão, de seriedade e piadas, de entrevistas esclarecedoras com ministros e “causos” contados com a “ingênua malícia” do caipira de Tambaú. E isso era todos os dias, um depois do outro, sem interrupções e sem alterações no tom de voz. Tudo parecia contradição, mas era pura coerência.
Coerência porque ele sempre conseguia fazer as quatro operações ao mesmo tempo. Somava, subtraía, multiplicava e dividia como ninguém. Somava alegria, subtraía mau humor, multiplicava simplicidade e dividia conhecimento.
Quando o Palmeiras ganhava, ele chegava no dia seguinte com uma camisa verde e um “sorriso paralisado” e ficava bem à minha frente, à espera do início do Jornal Gente, enquanto eu apresentava o Jornal Primeira Hora. Quando nosso Palestra goleava, já dava pra imaginar a cena. Era inevitável… Ele entraria no estúdio com um dedo levantado para cada gol. Quando nosso time perdia, ele já fazia a piada antes dos rivais. Eram as quatro operações, de novo, ao mesmo tempo.
Matutamente, também gostava de me “atrapalhar” de outro jeito. Aparecia com biscoitos finos em embalagens vistosas. Quase sempre pedia pra eu abrir o produto para “dar início aos trabalhos”. Às vezes mostrava o rótulo e dizia que se todos os ingredientes descritos estivessem mesmo ali estava bom. Pra me assustar, também fingia que ia jogar as bolachas na minha direção enquanto eu estava ao microfone. Concretizou a ameaça algumas vezes com um biscoito que dizia ser o melhor de todos. Fui goleiro de pacotes de maizena… Eram as quatro operações, sempre elas, ao mesmo tempo.
Mas houve um dia em que pensei que estava tomando uma bronca daquele sujeito que nunca ouvi gritar. Ele reclamou que eu estava chegando “muito em cima da hora” ao entrar no estúdio cinco minutos antes do encerramento do Gente e da abertura do Manhã Bandeirantes.
O pito que levei veio depois de uma conversa que ele havia tido com um taxista, na véspera. Era um ouvinte que sabia todos os temas das nossas conversas com o Zé Paulo e o Salomão na passagem de um programa para o outro. Olhou sério para mim e disse: “O que as pessoas gostam é das bobagens que a gente fala na passagem. Então, vê se chega uns 15 minutos antes. Ou então… Por que a gente não faz um programa inteiro só com a passagem? Vamos esquecer as notícias”. Lá estava ele, mais uma vez, fazendo as quatro operações ao mesmo tempo.
E depois ele ainda ficava mais um pouco pra ouvir as crônicas que eu lia para abrir o programa. Não foram poucas as vezes em que simplesmente me interrompeu com gestos engraçados ou para comentar o que eu estava falando e me fazer rir. Sem cerimônia nem convenções, com as quatro operações ao mesmo tempo.
E assim este momento de tristeza e de perda dá lugar às boas lembranças, que somam, subtraem, multiplicam e dividem ao mesmo tempo. Ele se foi, mas deixou uma história, esta sim, irreversível. E deixou também o meu querido amigo, Mauro, um cara que também soma, subtrai, multiplica e divide ao mesmo tempo. Como o pai.

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