As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sofriday de consumidor

Haisem Abaki

24 Novembro 2017 | 12h42

Já faz alguns dias que tenho acompanhado quieto o sofrimento, a sofreguidão, a sofrência, a sofriday de um monte de gente com a Black Friday. Alguns sofrendo de ansiedade, de desejo, de impulso pra aproveitar todas as ofertas imperdíveis. Outros sofrendo de desconfiança, de descrédito, chamando a promoção de Black Fraude.

O ponto alto dessa minha profunda reflexão sobre a sexta black aconteceu em uma quinta-feira cinzenta na demorada fila única dos rápidos caixas de uma rede de lojas, dessas que vendem de tudo. De cueca a TV de não sei quantas polegadas. De xampu e creme dental a notebook e celular. Enfim, de tudo um pouco a um pouco de tudo.

Estava ali, paradão, sem nada pra fazer e com apenas quatro produtos nas mãos. Exatamente aqueles que iria comprar e nada mais. E, como consumidor disciplinado e consciente que sou, pude observar como as pessoas que estavam à minha frente e as que chegavam pra aumentar ainda mais a fila se deixavam levar por armadilhas e artimanhas comerciais e mercadológicas.

Um sujeito de quem eu poderia ter inveja por estar na virada da “curva” à direita, quase na boca do caixa, já com a cesta cheia, pegou um desses salgadinhos que a gente come aos montes vendo futebol. Naquele corredor de petiscos e guloseimas de última hora, o pobre rapaz foi seduzido pela estratégia da loja.

Mais perto de mim havia um casal. O cara demonstrava impaciência com a fila e a moça era muito simpática e, pelos produtos que comprou, ficaria com os cabelos ainda mais bonitos. Ela aumentou o volume da cesta pegando duas barras de chocolate. Mais uma pessoa capturada pelo consumismo enquanto aguarda pela mágica expressão “próximo cliente, por favor” ou pela variação “caixa livre”.

Mas sofrimento mesmo é estar numa fila daquele tamanho com duas crianças. As menininhas ficaram agitadíssimas diante de tanta oferta de gostosuras. A mãe parecia desesperada porque as filhas pareciam disputar quem pegava mais coisas, como se uma estivesse desafiando a outra. Teve bala, chiclete, biscoito, bombom… Com a espera a loja sempre alcança vendas maiores.

Quase alcança. Porque eu não sou do tipo que cai nessa arapuca armada pelo comércio. Comigo não dá certo, não! Fiquei ali, cercado de um monte de bobagens atraentes, mas não cedi aos encantos das embalagens daqueles deliciosos conteúdos. Tenho firmeza suficiente pra não me deixar seduzir por sensações enganosas de prazer e bem-estar.

E assim entrei e saí da loja: quatro produtos na cabeça e exatamente os mesmos quatro produtos na sacola. Nem mais, nem menos. E nada de besteira para um fim de tarde de chove e não chove. Só o básico. Um bolo Pullman do concorrente da Pullman (que estava mais barato), ovinhos de amendoim, uma barra daquele chocolate que a gente come pra não ficar bravo como a Cláudia Raia e, o mais importante e essencial: um pacote de balas de goma. Que os outros fiquem com suas fraquezas.

Consumidor tem que se dar ao respeito e eu faço isso sem me desviar do bom caminho. Mas ficaria melhor se a bala de goma, esse alimento fundamental pra adoçar a vida, fizesse parte da sexta básica. Sim, da sexta. E do sábado básico, do domingo básico, da segunda básica, da terça básica, da quarta básica, da quinta básica… Todo dia é dia. E nada de sofriday!