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Sindicatos e lactobacilos

Haisem Abaki

12 Julho 2013 | 11h20

Os sindicatos estão parecendo a minha filha… (Desculpe-me, Lindinha. Não fique brava com o papai. Você já vai entender.) Ela está numa fase em que dorme além da conta. Entre um resmungo e outro, a mocinha diz que acordou e está apenas deitada, que já está indo, pede para não abrirmos a janela para o sol, rola na cama, enrola a gente e depois, finalmente, faz um apelo pra ficar ali “só mais um pouquinho”.
Assim são os sindicatos hoje, claro que sem a graça e o sorriso da minha menina. Agorinha mesmo, acabaram de fingir um despertar, embalados na onda do gigante adormecido que acordou. Mas só deram um bocejo e viraram para o lado.
Com exceção de uns poucos que sempre serão radicais seja quem for o dono do travesseiro governamental, tem gente desfrutando da cama confortável oferecida por autoridades de plantão que nunca dormem no ponto no quesito cantiga de ninar para movimentos sociais.
Só que teve uma turma sem partido e sem sindicato que enjoou do boi da cara preta e mostrou que não tem medo de careta. Também não demonstrou o menor receio da Dona Cuca porque o bicho do descaso público suprapartidário é muito mais feio e já está pegando faz tempo.
Aí, com tanto barulho, os sindicatos perceberam que era hora de pelo menos dar uma espreguiçada. Esticaram os braços dizendo: “Fiiiiim do fatooooor previiiiidenciáriiiiio”. Ô palavrinha comprida essa última… Depois, deram aquela alongada nas pernas berrando: “Reduçããããão da jornaaaaada de trabaaaaalho”. E outros mantras de sempre foram repetidos com uma puxadinha aqui e outra ali.
São sonhos antigos que adormeceram no soninho gostoooooso proporcionado por lençóis, colchas e edredons públicos. Deu uma vontaaaaade de ficar de pijama nesses últimos anos, né?! Muito discurso, “só mais um pouquinho”, “já estou indo” e nada de se levantar.
Agora, com a popularidade presidencial virando pesadelo, quem é pego na cama esfrega os olhos e ensaia uma justificativa que começa com “não é o que você está pensando, eu posso explicar”. Os flagrados afirmam que as bandeiras nunca foram abandonadas. Não mesmo, mas os líderes estavam calminhos, calminhos, como se diz naquele comercial de calmante à base de maracujá.
Nunca pensei que ia admitir isso um dia… Está batendo uma saudade do Joaquinzão, até do imexível Magri! Do Medeiros! Saudade do Meneguelli… Do Luiz Marinho, do Berzoini e do Vicentinho, dos três antes dos mandatos políticos… E do Lula! Aquele Lula do sindicato. Sim, os tempos eram bem mais duros e o poder parecia um sonho distante.
Agora fiquei saudoso até do dia em que sindicalistas muito bravos tentaram virar o carro de reportagem da CBN nos anos 90, numa assembleia no pátio da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Só pararam quando desci e perguntei a um dos furiosos que hora ele tinha acordado e retruquei dizendo que eu havia levantado pra trabalhar enquanto a companheirada ali ainda dormia. O pessoal ficou sem graça. Logo depois, o Vicentinho apareceu, enquadrou a rapaziada e ainda deu entrevista dentro do veículo que quase foi tombado pelo “patrimônio ideológico”.
Veio até a lembrança de uma tentativa de greve geral lá por volta de 1986 ou 87. Em Mogi, na Rádio Diário, uma colega faz um povo-fala ao vivo na rua e pergunta às pessoas o que elas pensam da paralisação proposta pela CUT. Uma senhora dispara: “Ah, vai ser ruim para as crianças”. A repórter estranha a resposta, insiste no motivo e ouve: “É que as crianças adoram Yakult!”. Hoje temos sindicalistas mais vivos do que os lactobacilos! Ainda dorminhocos, mas bem fermentados. Vai um chacoalhão aí? É bom agitar antes e ficar de olho no prazo de validade.