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Sinal verde para Joana

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h38

Publicado pela 1ª vez em 30/05/2008
Parei num semáforo da avenida Prestes Maia, a caminho da Marginal do Tietê. Era mais um dia de maio, o mês das noivas. Olhando para a direita, vi as vitrines de lojas especializadas no segmento, cheias de promoções. Algumas mulheres, creio que mães e filhas, caminhavam pela calçada em busca do vestido dos sonhos.
De repente, no meio da fila de carros com motoristas impacientes à espera do sinal verde, surge uma garotinha com pacotinhos de balas e a mensagem escrita num papel pedindo um real como ajuda. Era um toquinho de gente, mas já com desenvoltura para transitar entre a indiferença das pessoas.
Desci o vidro e perguntei a idade dela. Ela deixou um pacotinho cair no chão para sinalizar com os cinco dedos da mão direita e o indicador da esquerda. Seis anos. Não sou de comprar coisas assim na rua, mas naquele dia me pus a procurar moedas e vi que estava sem dinheiro.
– Você não estuda?
Ela silenciou.
Como é o seu nome?
Ela balbuciou algo que me pareceu ser “Joana”.
O sinal abriu e ouvi o buzinaço e uma frase de impacto do motorista que vinha logo atrás:
– Vai se f…!!!
Não respondi, apenas bati palmas enquanto ele passava para ficar alguns centímetros à minha frente e parar logo ali, no congestionamento.
Joana ficou para trás. Um carro parou ao meu lado e o carona, que havia presenciado a cena, sentenciou:
– Não esquenta não, isso não vai ser resolvido nem no próximo milênio!
Fiquei com aquela palavra na cabeça: milênio. Será que temos que ser tão conformados assim? Logo me lembrei de um assunto que falei muito como jornalista e ouvi com destaque na imprensa há alguns anos, mas que me parece esquecido nos últimos tempos: as metas do milênio.
Resolvi pesquisar e fiquei mais tranqüilo ao perceber que Joana está a caminho da felicidade e ainda não sabe. Um documento das Nações Unidas, assinado por governantes de todo o mundo, garante o futuro dela. São objetivos nobres que serão atingidos até 2015.
O primeiro deles é a erradicação da extrema pobreza e da fome. Faltam apenas sete anos! Portanto, aos 13, Joana, já adolescente, não precisará mais vender balas para sobreviver, nem será explorada por alguém mal intencionado. Você é que é feliz, Joana!
A segunda meta a ser alcançada é garantir o ensino básico universal. Talvez Joana se atrase um pouco nisso, mas em 2015, com certeza, estará na escola e não no semáforo. Que menina abençoada!
O terceiro objetivo do milênio é promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. Dupla vitória de Joana. Com apenas 13 anos de idade, ela já poderá desfrutar de tudo isso e estará prestes a ser dona do próprio nariz. Nariz rima com feliz.
O quarto compromisso é a redução da mortalidade infantil. Joana, hoje uma sobrevivente, certamente verá crianças saudáveis ao seu lado, quem sabe seus irmãozinhos, cheios de vitalidade. É muita felicidade e falta tão pouco tempo: somente sete anos!
O quinto objetivo do milênio é melhorar a saúde materna. Wonderful world!!! Joana também se realizará como mãe e nem precisará recorrer aos filhos e colocá-los para vender balas na rua. Que menina de sorte! Nasceu virada para a lua!
O sexto compromisso dos senhores do mundo é combater doenças como a Aids e a malária. O que mais pode querer Joana? Comida na mesa, educaçao garantida, dona do próprio nariz e ainda com saúde!
Acho que Joana não precisa de mais nada, mas ainda será beneficiada por outras duas iniciativas louváveis. Em breve, com o cumprimento do sétimo compromisso, estará vivendo num mundo com sustentabilidade ambiental e talvez até se esqueça da fumaça dos carros do longínquo tempo em que vendia balas no semáforo.
E por fim, suprema felicidade, receberá todas as benesses decorrentes do oitavo objetivo dos senhores do universo, que prometeram solenemente estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.
Nunca mais vi Joana. Passo todos os dias pelo mesmo lugar e ela não está mais lá. Gostaria de revê-la para lhe dar as boas notícias. Se vendendo balas ela já sorria, fico imaginando o que faria ao saber que está tão próxima da felicidade. Joana certamente não aceitará mais a minha ajuda, mas até deixei separada uma moedinha na esperança de reencontrá-la, mesmo sabendo que esta não é a atitude mais correta. O certo é cada um fazer a sua parte para transformar o discurso em ação. O semáforo nunca mais ficará vermelho para a menina feliz. Parabéns, Joana!

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