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Sempre em boa “cãopanhia”

Haisem Abaki

05 Junho 2015 | 12h15

Com 38 graus de febre, dor nas pernas e tremendo de frio, fui obrigado a tomar remédio e ficar quieto e suando debaixo do cobertor. Mas o efeito antitérmico que me ajudou na recuperação veio de dois olhos arregalados e de um rabinho abanando o tempo todo pra mim.

Foi só me ver mal que ela se aproximou. Ficou ali me cercando, como se quisesse perguntar o que estava acontecendo. Deve ter sentido minha mão quente no cafuné na cabeça “loira” e se deitou no tapete, no pé da cama. Eu virava pro outro lado e, quando desvirava, dava de cara com a mesma cena: olhos fixos e penetrantes e o rabinho balançando.

E assim foi até eu ficar bom e levantar da cama. Aí ela fez festa, começou a pular em mim, arranhar minha perna e, claro, abanar ainda mais todo mundo já sabe o quê. Pensei que já podia ser feliz há muito mais tempo se tivesse tido um cachorro na infância.

Quase tive, mas a felicidade só durou uns poucos dias. Na “versão oficial”, o pretinho viu a porta aberta e fugiu. Achei que o problema era comigo. Devia ter feito alguma coisa de errado… Depois, descobri que o único na casa que gostava de cachorro era eu e me conformei. Pensei que teria um quando fosse adulto e não precisasse pedir nada a ninguém.

Minha convicção foi colocada em dúvida lá pelos 15 ou 16 anos, eu acho. Meu pai tinha se aposentado e começou a vender pão sírio e outras guloseimas árabes de porta em porta. Eu sempre ia junto e um dia fui recebido aos latidos pelo pinscher de um freguês.

O “turco” me mandou ficar quieto, dizendo que não aconteceria nada. Só seria mordido se corresse. Ah, é? Eu ali, paradaço, tomei uma dentada na perna. O bicho se pendurou na minha calça jeans e saiu até sangue. Fiquei um tempo com a confiança abalada. Em cães e no meu pai também…

A história passou meio esquecida nos quase 20 anos em que morei em apartamento. Achei que não combinava, mas ficava babando com a cachorrada dos vizinhos que encontrava no elevador e nas áreas de lazer do condomínio. Não precisava mais pedir pra ninguém. Era só ter um e pronto. Mas nada…

Prometi pras crianças que teríamos um na mudança para a casa nova, com quintal e mais espaço. E há três anos, depois de muitos namoros e “ai que fofo” pra vários bichos, eles encontraram aquela que o destino parece ter reservado para as nossas vidas. Quando ela chegou, passava um filme da Meg Ryan na TV. E assim ela virou Meg, a nossa shih tzu “loira”.

Acabo de ver que, segundo o IBGE, o Brasil tem 52 milhões de cães e 45 milhões de crianças de zero a 14 anos. Cada um pode tirar as suas conclusões. Vai ter gente dizendo que as pessoas preferem mais os animais, que está cada vez mais difícil colocar um filho no mundo e por aí vai…

Eu digo que cada um sabe da sua vida, mas no meu caso recomendo. As duas “categorias” só me dão alegrias e renovam as esperanças, se bem que as crianças às vezes “latem” comigo quando não concordam com alguma coisa.

Ainda sinto saudade do pretinho que “fugiu”. E hoje estou bem seletivo nas minhas “cãopanhias”. Gosto de pessoas “cãotaminadas” por esse amor e que não se “cãoformam” com nenhum tipo de abandono, seja de gente ou de animal. É o que basta pra me “cãoquistar” e deixar bem “cãotente”. Fico tão “cãorinhoso” com quem “cãosegue” ter tanto amor assim no “coracão” que sou capaz de imitar a Meg. Ela deve ter puxado de mim aqueles olhos arregalados.