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Se eu tivesse um DeLorean…

Haisem Abaki

23 de outubro de 2015 | 09h53

Eu nunca precisei de muitas justificativas pra viajar na maionese do pensamento. Sempre voei alto e longe, desde os primeiros livros ilustrados na infância. O rádio, companheiro de berço, cama de solteiro e depois de casal, também estimulava a imaginação. Músicas e filmes completavam e ainda completam o “serviço de bordo”. Então, nesta semana a passagem de ida, quase sem volta, foi carimbada por Marty McFly.

Perdi a conta de quantas vezes já vi a trilogia “De Volta Para O Futuro”. Gosto mais do primeiro e do segundo. E é no segundo que aparece a famosa cena do painel do carrão programado para 21 de outubro de 2015. Quando assisti pela primeira vez tinha 25 anos. Ou perto dos 26, talvez.

Tentei me projetar naquele futuro distante e não consegui. Achei que era muito tempo. Meus delírios imaginativos só me levavam até o ano 2000, quando teria 36 anos. Com algum esforço, chegava no máximo aos 40, em 2004. Não passava disso.

A razão dessa limitação hoje me parece simples, mas só percebi com o tempo, a maturidade e algum (será?) autoconhecimento. É que no meu caso ter imaginação fértil não significa fazer planos. Pelo contrário! São coisas beeem diferentes. O plano era um só: viver intensamente. E assim foi e ainda é, para o bem e para o mal.

Com essa minha dificuldade para a “futurologia”, Marty, Doutor Brown e Jennifer acabaram me proporcionando nesses últimos dias um exercício de “passadologia” mesmo. Sim, pensei em épocas e situações e se faria algo de diferente se tivesse a chance de pilotar aquele DeLorean.

A primeira parada seria num réveillon, acho que em 1983. Um porre de vinho bem na frente do meu pai. Teria bebido menos. Ou apagaria aquela lembrança. Se bem que depois de algumas doses já não me lembrava de nada mesmo. Nem sei como ele me levou pra casa.

Depois um pulinho lá em 1986. Pra que ir ao jogo final entre Palmeiras e Inter de Limeira? Ah, mas depois eu passaria umas três vezes na decisão de 1993 entre Palmeiras e Corinthians. E naquelas disputas de pênaltis em 1999 e 2000. Cobra 20 vezes, Marcelinho! O quê? 2002 e 2012? Meu carrão não faria rebaixamento pra ver nada daquilo…

Mas o DeLorean mudou de rumo e eu de estado de espírito quando o tocador de música colocou nos meus ouvidos “The Hardest Part”, com Coldplay. “E a parte mais difícil/Foi deixar passar, sem tomar parte…”. Teria trabalhado menos e ficado mais com meus filhos. Teria convivido mais com meu pai. Não teria demorado tanto tempo pra entender que estava em depressão depois da partida dele. E teria ouvido mais quem sempre amei e quis me ajudar enquanto eu estava ausente.

E logo depois veio “Glory Of Love”, com o Peter Cetera. “Há muitas coisas que eu quero dizer/Eu sempre a amarei/Eu nunca a deixaria sozinha…”. Ô Marty, meu véio, me dá uma carona nesse DeLorean! É logo ali, só pra eu consertar umas coisas e pedir uns perdões… Eu faço um pré-datado!