As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Saudades doces e recheadas

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h00

Publicado pela 1ª vez em 13/09/2008
Conheci um homem que tinha um vício. Não bebia, não fumava e se alimentava com moderação, mas se rendia a uma fraqueza. Ele não escondia de ninguém aquele exagero que cometia.
Não sei direito como ele começou a se deixar dominar pelo irresistível impulso. Suspeita-se que os primeiros sintomas tenham surgido quando soube que ia ser pai. Ficou bobo com a notícia e nem percebeu que logo iria adquirir um hábito que o acompanharia para o resto da vida.
A situação se agravou quando o médico descobriu uma complicação na gravidez e disse que havia o risco de que ficasse sem a mulher ou sem o filho – ou até sem os dois.
Um choque como esse faz qualquer um perder a cabeça e passar a ter atitudes diferentes diante da vida. A mulher dele notou, ainda na Maternidade, que algo havia mudado. Ela ficou internada e logo passou a ser uma “vítima” do vício que aquele homem começava a adquirir.
O médico estava certo. Foi um parto muito complicado mesmo, mas a notícia que ele recebeu o deixou aliviado: a mulher e o filho haviam sobrevivido. O homem entendeu aquilo como uma graça que havia recebido diretamente do céu.
Mas o impacto da experiência não foi suficiente para fazê-lo voltar a ser a pessoa que era antes da paternidade. Não demorou muito e o filho, ainda na infância, também passou a ser “vítima” do descontrolado impulso que dominava o pai.
Ele continuava a trabalhar muito e a sustentar a família com dignidade, mas às vezes chegava em casa demonstrando estar completamente entregue ao vício. O tempo passou e os amigos começaram a perceber a mudança no comportamento. Mais do que isso, também passaram a ser “vítimas”, como a mulher e o filho.
Aos poucos, a figura daquele homem se associou de vez ao vício do qual nunca mais conseguiria se livrar. As datas comemorativas ficaram definitivamente marcadas na vida da família. O Natal nunca mais foi o mesmo e todos já sabiam o que ele iria fazer.
Já estavam todos conformados quando o homem passou a fazer mais uma “vítima”: a nora. Como o marido e a sogra, ela aprendeu a conviver com a situação. Ele ficou bobo de novo ao saber que seria avô, mas nem isso o fez poupar a própria neta. Quatro anos depois, ganhou um neto, outro que logo virou um alvo.
Minha última lembrança é do Natal de 2006. A poucos dias de completar 81 anos, lá estava aquele homem com seu inseparável vício. Com a suave gargalhada de sempre, tinha cinco presentes embrulhados e todos nós já sabíamos o que iríamos ganhar.
O primeiro foi para a mulher que escapou da morte na gravidez: uma caixa de bombons. O segundo foi para a nora que chamava de filha: uma caixa de bombons. O terceiro foi para o filho que conseguiu nascer: uma caixa de bombons. O quarto foi para a netinha que chamava de “bagunceirinha”: uma caixa de bombons. O quinto foi para o netinho que chamava de “bagunceirinho”: uma caixa de bombons.
Um ano depois de termos perdido o homem viciado em presentear as pessoas que amava com caixas de bombons, não consegui ter lembranças tristes, apenas doces e recheadas. Ele nem gostava muito de chocolate. Gostava era de presentear com chocolate. Isso começou há 44 anos, lá na Maternidade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: