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Saudades de um anjo

Haisem Abaki

14 de agosto de 2015 | 10h38

Saio do quarto e vejo o moleque de costas, na sala, sentado diante do computador. Fico ali parado, olhando para aqueles cabelos encaracolados. Ele não gosta da tesoura e resiste o máximo que pode. E aí renasce uma saudade que não sentia faz tempo.

O garoto percebe a minha presença e solta um “que foi?”. Respondo que os cachos do rebelde sem corte trazem à minha memória o tio dele. E o rapazinho fica curioso e pergunta como era meu irmão.

O ano era 1968. O dia, 27 de fevereiro. Quase todo mundo no Carnaval. Com a vaga lembrança dos meus quatro anos, sei que fui deixado com os vizinhos do primeiro andar, que me contavam histórias pra dormir.

Na maternidade, pelo que soube depois, o médico demorou pra chegar por causa da folia. Aparentemente tudo acabou dando certo. Não. Faltou oxigênio no cérebro na hora do parto.

Aos poucos, os pais percebiam algumas diferenças em relação aos bebês “normais”. Os olhos eram bem expressivos e com eles o caçula parecia se comunicar. O tempo ia passando e não chegavam os movimentos esperados. Nada de engatinhar, sentar, muito menos andar. Nem de falar, a não ser por alguns sons.

A busca por explicações e pela “cura” fez os pais do bebê de cabelos encaracolados mudarem suas crenças e valores. Tentaram de tudo, da medicina à religião, mesmo que não fosse a deles. Bateram à porta de “curandeiros” também, sempre com alguma ponta de esperança. E vinha uma frustração atrás da outra.

Depois de não sei quanto tempo, finalmente, um médico deu o diagnóstico de paralisia cerebral, explicou as restrições que ele teria por toda a vida e disse que não havia o que fazer. Era o começo dos anos 70.

Hoje eu sei que foi mais ou menos nessa época que surgiu meu primeiro “sentimento de culpa” na vida, de muitos outros que vieram depois. Achava que o problema estava em mim e que meu irmão não queria “brincar” comigo. A coisa piorou no dia em que o derrubei do carrinho e ele machucou o nariz. Dor? Choro? Nada. Só um sorriso e os olhos expressivos de sempre. Mas mereci ficar de castigo.

Demorou mais um pouco até eu perceber que aquele garoto de cabelos encaracolados, além de irmão, era meu melhor amigo. Parecia entender tudo o que eu falava. Nossas camas ficaram lado a lado até 14 de agosto de 1986. Eu com 22 e ele com 18 anos.

Foram três internações em dois meses. Pneumonia. E foi o período em que tive o maior desentendimento da vida com meu pai. Eu quis que desligassem os aparelhos para acabar com o sofrimento. A voz dele se levantou pra dizer que só Deus iria decidir a hora.

E a hora que Deus quis aconteceu em casa. Partiu com os olhos abertos e expressivos como sempre, um leve sorriso e os cabelos eternamente encaracolados. Era um anjo.

Voltei das lembranças dizendo pro moleque pelo menos pentear o cabelo, que de tão enrolado e bagunçado estava parecendo “um ninho”. E a memória trouxe de novo a imagem do meu pai explicando os nomes diferentes que tínhamos, esquisitos até para os amigos do Oriente Médio. Os dois em árabe não mais usual, arcaico mesmo. Eu, “leão”. Meu irmão, Hizar, “sabiá”. Vou deixar em paz o ninho do garoto que se parece com o tio. A vida está precisando de menos leões e mais sabiás…