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Saudade de vez em sempre

Haisem Abaki

09 de outubro de 2015 | 09h51

O microfone abriu e eu dei uma informação daquelas que jornalista costuma falar já no piloto automático. Era sobre a situação dos aeroportos, algo corriqueiro em quase 30 anos de voo pelo rádio, desde o tempo em que ainda se escrevia vôo. Mas dessa vez foi diferente e a lembrança trouxe de volta cenas da infância entre partidas e chegadas no aeroporto.

Quem é filho de imigrantes, como eu, aprende logo o significado da palavra saudade. Em casa, via meus pais esperando cartas ansiosamente e mandando outras tantas pelo correio ou levadas por alguém que ia para a terra natal. Não havia a chance do olhar instantâneo de hoje, em que você consegue ver um parente por uma tela logo depois de um bombardeio pra saber se está tudo “bem”.

Todo aquele clima me fazia sentir saudade até de gente que não conhecia: meus avós e tios, lá na Síria. E foi quando, aos poucos, comecei a descobrir que gosto muito de beijos, abraços e afagos. Mas não na despedida, só nos reencontros. Não sou um ser muito preparado para perdas e para um adeus. Nem para um até breve.

O intervalo comercial me deu um tempo pra continuar viajando. E notei que este ano tem sido mais de despedidas do que de reencontros. Talvez isso tenha começado quando, finalmente, consegui me desfazer de um luto. Um luto de quase oito anos. A vida corria e eu não percebia.

Depois vieram outras perdas. Perdas de gente que espero reencontrar do lado de lá. Se houver lado de lá. Bom, eu acho que tem um lado de lá. É… Se existir mesmo, espero fazer por merecer uma vaguinha no avião. Nem precisa ser na janelinha.

E ainda tive outros afastamentos que, sei lá, talvez sejam temporários. Como a decisão de passar a semana mais perto do trabalho, a 65 quilômetros de distância e saudade de minhas duas versões melhoradas, que me chamam de pai. Eu também te amo, Skype!

Mas, além das perdas que a vida leva e das que a gente escolhe, há aquelas que são das circunstâncias, das adequações e imposições ou das necessidades de cada um ir para um lado, só pra seguir adiante e “mudar de turma”.

Aí, pensei nos vários “tipos” de pessoas que a gente encontra por aí. Tem de tudo. Parceiras, solidárias, competitivas, estressadas, emotivas, alegres, teimosas… Cada uma com suas qualidades e “defeitos”, assim como eu.

Mas tem um “tipinho”, viu? É gente que se diz autossuficiente, independente, “estou bem e não preciso de você”, como se qualquer proximidade pudesse atrapalhar todos esses “conceitos de vida”.

Ao mesmo tempo, esse tal “tipinho”, apesar do “mantenha distância”, quer saber da sua vida, como você está, se tomou remédio pro resfriado e às vezes se entrega e se desmente num simples olhar. É o modelo “não me toques”, só que não… Olha, cansei, tá? Pra esse “tipinho” de gente quero dizer uma coisa, definitivamente. Pra não deixar nenhuma dúvida, porque comigo é assim mesmo, na lata. Adoooro! E pode patrulhar o que quiser. Menos a saudade. Ela é “impatrulhável”. Assim como essa palavra, é uma possibilidade que não existe. Entendeu agora, “tipinho” do meu coração?