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Saudade até das más lembranças

Haisem Abaki

10 de abril de 2021 | 10h22

“Cadê as fotos dos pratos?”, cobra um amigo. “Por que você não posta mais os quitutes? Parou de cozinhar?”, pergunta outro. Pois é, criei a “fama” de cozinheiro, padeiro e doceiro e agora sou obrigado a conviver com ela. As fotos enganam bem e não revelam a falta de jeito para movimentos delicados na cozinha. Os gestos bruscos com panelas e colheres de pau e a pouca habilidade com as facas nunca apareceram no constante e fotogênico cenário da bancada de granito. Nem os bolos que não deram certo na hora de virar, mas que foram devorados assim mesmo.

No começo era uma distração para um sujeito descobrindo o que fazer com o tempo em casa, que virou local de trabalho. Era até uma diversão e parecia que ia acabar logo. O início foi meio “arroz com feijão”, mas o sangue foi pedindo incursões pela culinária árabe e quibes, caftas, tabules, fatouches, pastas de grão de bico e abobrinhas e berinjelas recheadas se viram diante de um grande “tá lento”, que fazia tu-do de-va-gar.

Vieram também os pães. Uma sovada mais forte rachou a tal bancada do “neopadeiro”. E depois as sobremesas, como pamonhas de forno, mousses e pavês, estes últimos acompanhados daquela piada beeem original. Dava pra ter engordado, mas as imparáveis caminhadas seguraram a onda do guloso e egoísta sweet man.

Respondi aos amigos que não, não parei de cozinhar. Mas aos poucos fui perdendo a vontade de mostrar os pratos. E sim, o apetite diminuiu. Não foi preguiça, nem exaustão com a mesmice da vida o tempo todo em casa. Foi uma mistura de perda de tesão com um pouco de vergonha e uma pitada de sentimento de culpa, apesar de saber não ter culpa de nada.

Simplesmente não conseguia mais postar façanhas gastronômicas de um aprendiz sênior numa rede social tomada por desabafos, tristezas e tantas despedidas. Fora os ódios e intolerâncias contaminantes. Um pavê de chocolate em meio a camadas e mais camadas de obituários, de indignações e de saudades de vidas interrompidas pela pandemia? Não mais. E não foi pra dar uma de politicamente correto nem pra evitar uma má impressão. Foi “só” a angústia com o novo normal de não sei quantos aviões caindo diariamente.

Também não foi por receio de julgamento, porque isso a profissão já me dá de presente todos os dias. Um ouvinte devotado a seu político de estimação quis saber se além de criticar a demora do auxílio emergencial eu ajudava a quem precisava. Podia ter respondido que sim e devolvido a mesma pergunta, mas só consegui ter a lembrança de meu pai dizendo pra fazer o bem às pessoas, mas sem se gabar disso nem se autoproclamar como “gente de bem”.

Percebi que dessa vez não foi só aquela frequente saudade paterna que bateu em mim. Conversando com outro amigo, concluí que estávamos com saudades bem menos seletivas depois dessa tragédia toda. Saudades até de gente que achávamos que era ruim de serviço no poder. E que era mesmo, mas não dançava sobre cadáveres.

A falsa máscara da briga entre o bem e o mal caiu nesse novo mundo em que a outra máscara salva. Isso não é mais “polarização”: é a diferença entre a vida e a morte. E as duas podem ser mais dignas. Que todos tenham do arroz com feijão ao pavê.