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Sapatrospectiva 2008 – Parte 2

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h21

Publicado pela 1ª vez em 28/12/2008
Prossigo aqui com as sapatadas que vieram na minha direção no ano que se encerra. Sem falsa modéstia, acho que fui mais ágil do que o Bush nessas histórias contadas no blog e com uma larga vantagem: ninguém foi preso por ter atirado o melhor amigo do chulé em mim.
Em julho, me assustei com a sensação de que o futuro não estava tão distante, mas a poucos passos. Aos cinco anos, meu filho acordou de madrugada e perguntou se o Palmeiras ainda vai existir quando ele virar gente grande.
Imaginei como seria o mundo do meu garoto aos 21 anos, em 2024. Eu teria 60 e gostaria de dar algumas notícias como essas:
– Os bafômetros comprados pela polícia em 2008 vão para um museu porque nenhum motorista dirige mais depois de beber!
– O governo extingue o programa Bolsa Família porque não há mais pobres para receber o benefício!
– Os professores recebem aumento salarial pelo 16o ano consecutivo e não fazem greve desde 2008!
– A meteorologia prevê que neste ano de 2024 haverá Verão no Verão, Outono no Outono, Inverno no Inverno e Primavera na Primavera!
– O Fundo de Solidariedade pede que as pessoas não doem agasalhos porque ninguém vai precisar!
– Estréia hoje nos cinemas um documentário que mostra como eram os congestionamentos em São Paulo!
Quando agosto chegou, fui conferir o horário político e me vi no meio de um tiroteio de sapatos. Por pouco não fui vítima de uma arma química, o chulé dos candidatos:
Apareceu um candidato com nome de chocolate se derretendo ao pedir votos ao eleitor mais aerado.
Outro, fantasiado de palhaço, entrou em cena para fazer promessas. Só faltou dizer que era um candidato de cara limpa.
Vários outros usaram o bordão “você me conhece”. (…) Desisti quando apareceu um que defendeu a educação e prometeu lutar por mais cursos “porfissionalizantes”. Sou meio distraído, mas não foi erro de digitação.
Em setembro, ironia do destino, fui simultaneamente alvo e atirador. E justamente numa loja de calçados! Quis provar para mim mesmo que era capaz de comprar um sapatênis sozinho, sem a ajuda da minha mulher. Consegui! Bem, mais ou menos:
Na frente do vendedor, liguei para minha consultora para assuntos do mundo fashion e perguntei qual combinaria mais com as minhas roupas, o marrom claro ou o mais escuro.
De volta para casa, tive o total e irrestrito apoio dela:
– É, tá bonito… Tá bom, vai…
Ela gostou taaaaaaanto, muuuuuuuito, bastaaaaaaante mesmo, que no Natal me deu… um sapatênis!
Chegou outubro e a campanha política voltou a dar suas sapatadas. Por dever profissional, acompanhei tantos debates que até dormindo não conseguia desviar do assunto. Num sonho, vi um confronto muito louco. Os dois candidatos eram submetidos a um detector de mentiras com um placar implacável:
De repente, com o placar em 44 a 44, a máquina entra em parafuso e começa a alternar vozes masculinas e femininas, graves e agudas:
– Mentiiiiiiiiiiiiira! Mentiiiiiiiiiiiira! Mentiiiiiiiiiiiira! Mentiiiiiiiiiiiira!
Os candidatos percebem que o pior vai acontecer, se desconectam e saem correndo. Longe do perigo, se abraçam:
– Você está bem? Eu estou… e você? Eu também…
Booom!
Em novembro, a sapatada veio de um sujeito que tinha um facão na mão. Era o açougueiro de um supermercado, que ficou muito bravo quando recusei a carne moída exposta no balcão e tive a ousadia de pedir “um quilo de patinho moído na hora, por favor”:
Imediatamente, lá foi ele pegar o temível facão para cortar a carne, não sem antes avisar para todo mundo ouvir:
– Vai demorar! (…)
– Um trezentos e oitenta está bom ou quer que tire?
– Pode tirar…
O rapaz tascou a mão na carne duas vezes. Quando a balança marcou 1.098 kg, disse a ele que estava bom. Nem perguntou se eu queria mais alguma coisa, mas era só aquilo mesmo.
Dezembro foi um marco para mim. Minha filha fez 10 anos e tomei um susto ao saber que, tecnicamente, passei a ser pai de uma adolescente. O sapatinho atirado em mim era cor-de-rosa e não me machucou. Escrevi uma carta contando para a minha menina como virei um pai babão. Aqui um trecho:
Meus gostos literários mudaram repentinamente. Passei a procurar somente livros e revistas sobre bebês. Claro que o trabalho não me deixava pensar nisso o tempo todo. A missão ficou com quem embalava você. A vida continuava e a minha cabeça precisava se voltar para outros assuntos, como… o berço, o carrinho, o papel de parede. Eu não podia parar só porque você ia nascer. Então, segui em frente e passei a me preocupar com… mamadeira, chupeta, roupinhas.
No fim das contas, acho que termino o ano com tranqüilidade na consciência, nas mãos e nos pés. Quero pisar firme em 2009, mas antes vou deixar meus andantes mergulhados nos chinelos ou até descalços. Nada de sapatos por três semanas. Apesar de ser feliz por fazer o que gosto, nada de microfone e nada de blog também. A todos que conviveram comigo, aqui e no rádio, desejo uma feliz caminhada no Ano Novo.

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