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Sapatrospectiva 2008 – Parte 1

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h19

Publicado pela 1ª vez em 21/12/2008
Fim de ano é tempo de sentimentos contraditórios. Tem gente que fica eufórica, cheia de esperança com a renovação trazida pelo Natal e pela virada do calendário. Mas tem gente que fica melancólica, cheia de interrogações. Já tive uma mistura dessas duas sensações, como se juntas elas formassem… um par de sapatos.
Sapatos que, nos últimos dias, serviram para piadas depois que um jornalista iraquiano mandou ver duas sapatadas na direção do Bush, aquele quase ex-todo-poderoso que ouviu os pensamentos e conselhos que vinham diretamente do chulé e entrou de sola no Iraque.
A repetição da cena mudou minha visão de mundo. Comecei a parceber que não estamos sós na imensidão do universo. Basta olhar com um mínimo de atenção para perceber que os sinais são claros. Bem, alguns também são escuros. Na verdade, são vários modelos rondando nossas cabeças e nós insistimos em fingir que nada está acontecendo.
Preste bem atenção, olhe à sua volta. Você vai enxergar objetos voadores não identificados por todos os lados e perceber o seu jeito Bush de ser, todos os dias dando várias abaixadinhas para escapar da invasão das sapatadas. Resolvi fazer a minha “Sapatrospectiva 2008” com base na histórias que contei aqui no blog. Nada de grandes acontecimentos mundiais. Fiquei no meu mundinho mesmo.
Em janeiro, desviei de uma sapatada inocente da minha filha. Ela me perguntou se um dia eu a levaria aos Estados Unidos, para conhecer a Disney. Dei uma abaixadinha dizendo “um dia, talvez” e ela já ficou contente. Aqui um trecho da história:
A encrenca mesmo seria o tal visto. Ainda mais para um sujeito com nome e sobrenome árabe, como eu. Será que tirar a barba resolveria? Não, não adiantaria. Logo me imaginei na longa fila do consulado americano, fazendo cara de Pateta para ver o Mickey.

Chegou fevereiro e o sapatinho cor-de-rosa veio de novo na minha direção. Era o tempo do escândalo dos cartões corporativos do governo e minha garotinha se preparava para a primeira aula de filosofia:
– Paaaaai, o que é filosofia?
Mais uma vez, demorei para assimilar a pergunta. Filosofia na 3a série?
– Fala pai, o que é filosofia?
– Filosofia… é estudar o pensamento humano, a transmissão de conhecimento, de sabedoria, de ética…
– O que é ética? Eu vou aprender a adivinhar o pensamento das pessoas?
Parecia que eu estava em meio a um bombardeio.
Em março, fui vítima do trânsito animal de São Paulo. Num dia de chuva, desviei de um monte de sapatadas até ser atingido em cheio na Marginal do Tietê:
De repente, na avenida República do Líbano, avistei dois jacarés. Eram dois motoristas que quase bateram ao ver um pedacinho de asfalto desocupado. (…) O aguaceiro diminuiu e logo o trânsito melhorou. Foi a senha para um “salve-se quem puder” no meio da selva. De todos os lados surgiam leopardos, onças, panteras, coelhos, gazelas, cervos, camelos, girafas e até elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Todos querendo recuperar o tempo perdido.
Voltei a ser tartaruga na Marginal do Tietê, onde deu zebra. Perto da ponte da Vila Guilherme, parado na terceira faixa, não fui visto por um “caminhão urso”, que me acertou na lateral ao tentar sair da segunda faixa.

Começou abril e eu nem imaginava a sapatada que logo viria na minha direção. Estava em casa à noite, quando senti tontura e vi umas coisas balançando. O primeiro terremoto a gente nunca esquece, mas percebi outros tremores que estavam acontecendo naquele mesmo dia:
A CPI dos Cartões tem acesso aos gastos sigilosos da Presidência: 6,4 graus.
Os países ricos estão muito preocupados com a falta de alimentos nos países pobres: 7,6 graus.
O presidente Lula fica muito bravo com os países ricos: 8,3 graus.
Mais uma ressurreição do Juvenal Antena: 9,1 graus.
George W. Bush, com cara de paisagem, dança jazz num evento político: 9,9 graus.

Em maio, conheci Joana, uma menina de seis anos que vendia balas num semáforo. Que sapatada! A abaixadinha veio com a lembrança do noticiário sobre as metas do milênio, um documento das Nações Unidas com os compromissos firmados por governantes de todo o mundo até 2015. Joana estava salva:
O primeiro deles é a erradicação da extrema pobreza e da fome. Faltam apenas sete anos! Portanto, aos 13, Joana, já adolescente, não precisará mais vender balas para sobreviver, nem será explorada por alguém mal-intencionado. Você é que é feliz, Joana!
A segunda meta a ser alcançada é garantir o ensino básico universal. Talvez Joana se atrase um pouco nisso, mas em 2015, com certeza, estará na escola e não no semáforo. Que menina abençoada!

Junho foi o mês em que quase levei uma sapatada de um garoto que usava tênis. O moleque desconhecido me parou na rua, me chamou de tio e perguntou as horas. Desprovido de relógio, tentei desviar dizendo a hora que havia acabado de ouvir no rádio. Ele se afastou e fiquei sozinho com minhas lembranças:
Rompi com a “escravidão do tempo” ainda na fase “aborrescente”. Cheguei até a questionar os fusos horários. Seriam eles uma imposição do imperialismo vigente? Não, mas para mim toda hora era hora de ser do contra. (…) Virei apresentador e não teve jeito: passei a ser “um falador de horas”. (…) Hoje dou a hora certa sem pudor, mas continuo com o pulso pelado. (…) Ultimamente, nas horas vagas, tenho me ocupado de uma atividade lúdica: ensinar o meu filho a ver as horas.

Chegou julho e… Ih, preciso parar agora. Estou sendo chamado para as compras de Natal, que deixei para a última hora. Já estou pensando nos sapatos voadores que vão rondar minha cabeça no shopping. Acho que estou precisando de alguns novos… para os pés. Vou procurar refúgio numa loja de calçados. Até a semana que vem, com a segunda e última parte da Sapatrospectiva 2008. A todos que frequentaram este espaço e me incentivaram, desejo um Feliz Natal.

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