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São todos do povo de Deus

Haisem Abaki

15 Dezembro 2016 | 09h23

“Dom Paulo amou o povo judeu e os muçulmanos como irmãos de sangue”. A frase do professor e teólogo Fernando Altemeyer Júnior, que li ontem, coincidiu com o exato momento da lembrança de uma cena do começo dos anos 90. Foi na sede da Cúria, na avenida Higienópolis.

Nem sei mais qual era o tema, mas a sensação foi a de sempre. Em mais uma entrevista, fiquei diante de um dom Paulo que conseguia ser ao mesmo tempo veemente e sereno, firme e sorridente. Talvez tenha sido uma pauta sobre a Quaresma ou a Páscoa, algo assim. Mas a surpresa veio na hora da despedida.

Eu já conhecia o cardeal pessoalmente há algum tempo. Na CBN, fui quase um “setorista” na Igreja Católica. Ia com frequência cobrir eventos na Catedral da Sé, na PUC, nos encontros de bispos em Itaici. E também na chamada periferia, que dom Paulo sempre visitava. Houve uma missa de Finados no Cemitério da Vila Formosa em que ele falou muito mais da vida e da esperança do que da morte.

Confesso que, além do conteúdo, também achava engraçada a entonação da voz e tentava imitá-lo em algumas brincadeiras na Redação. E na hora de editar as entrevistas não dava vontade de fazer os cortes. Queria deixar na íntegra e as sonoras ficavam longas. Como numa vez em que ele disse que não era pecado comer carne na Quaresma.

Mas o momento mais marcante ocorreu em outubro de 1992. Dom Paulo foi ao Carandiru dias depois do massacre e a imprensa, claro, acompanhou. Ali o semblante dele era de indignação. E ainda era possível ver marcas de sangue. E também sentir um “cheiro” de morte.

A última entrevista que fiz com ele foi exclusiva e por telefone. Era a noite de 02 de abril de 2005. O plantão até então tranquilo na Bandeirantes se transformou em agitado após o anúncio da morte do papa João Paulo II.

A notícia já era esperada e havíamos montado um esquema que seria acionado a qualquer momento. E foi num sábado. Estava tudo acertado com os professores Mário Sérgio Cortella e Fernando Altemeyer, que iriam ao estúdio. O Cortella foi e passamos horas no ar. O Fernando estava com o pai no hospital, mas participou por telefone e ainda intermediou o contato com dom Paulo, que enalteceu João Paulo II. Não havia lugar para mágoa com o papa que desmembrou a Arquidiocese comandada por dom Paulo. E a entrevista, como sempre, terminou com uma mensagem de esperança.

Mas voltemos à cena lá da avenida Higienópolis. A entrevista havia terminado e me despedi com formalismo e ia saindo quando fui tocado suavemente no braço. Não chegou a ser um puxão. E veio a pergunta, seguida de um diálogo mais ou menos assim.

– Como é que se pronuncia o seu nome? É Haizen (fez som de z e com n no final)

– É Haisem, dom Paulo, como se fosse com dois ss. E com m no final.

– Ah, com m. H, a, i, s, e, m. (ele soletrou)

– Isso mesmo, dom Paulo.

– É alemão?

–  Não, dom Paulo. É árabe, meus país são sírios.

– Ah, árabe… Pensei que fosse alemão. Árabe cristão ou muçulmano?

Bem, aí foi minha vez de falar pausado, como se estivesse dando uma desculpa por não frequentar o templo.

– Minha família é de origem muçulmana. Mas eu estudei em escola católica… O Instituto Dona Placidina, das Irmãs Ursulinas, em Mogi,

– Ah, Irmãs Ursulinas… Mogi das Cruzes?

– Isso, dom Paulo.

– Muito bom. Cristãos, muçulmanos, judeus… São todos do povo de Deus!

– Meu pai sempre diz que as religiões têm muito mais pontos em comum do que divergências…

– Diga ao seu pai que ele está certo.

– Vou dizer. Ele gosta muito do senhor e vai ficar feliz.

E depois dos cumprimentos de despedida ainda pude ouvi-lo dizer bem baixinho, se afastando, mas enfatizando “o meu s” com aquele som característico dele, como se estivesse assobiando.

– H, a, i, s, e, m… Haisem.

Agradeço ao professor Fernando Altemeyer Júnior por sempre ter facilitado meus contatos com dom Paulo no tempo em que foi assessor dele. E por ter despertado em mim esta lembrança. Uma lembrança de vida e não de morte. E com “o meu s” suavemente assobiado.