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Salve-se quem puder no trânsito animal

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h20

Publicado pela 1a vez em 14/03/2008 10:00:00
Voltei para casa no meio de um temporal e, como sempre, tendo o rádio como companheiro. Milton Parron apresentava um programa animal, direto do Zoológico de São Paulo, em comemoração aos 50 anos do parque.
A habilidade dele para conduzir as entrevistas me fez “ver” elefantes, chimpanzés, girafas, leões, jacarés. A transmissão do Zoológico foi interrompida algumas vezes para dar espaço a um assunto que também é o bicho: o trânsito paulistano, ainda mais selvagem quando chove. Eu mesmo entrei com informações da região do Ibirapuera, por onde passava. Aos poucos, comecei a perceber um outro Zoológico à minha volta.
No rádio, o tratador de répteis Edvaldo dos Santos falava sobre a volta dos jacarés-de-papo-amarelo, ameaçados de extinção. O Parron quis saber dos cuidados para alimentar esses bichos. O entrevistado explicou uma técnica para que eles não se atacassem mutuamente na disputa pelo alimento. De repente, na avenida República do Líbano, avistei dois jacarés. Eram dois motoristas que quase bateram ao ver um pedacinho de asfalto desocupado. Não entendi o conteúdo dos xingamentos. Acho que falaram na língua dos répteis.
Quando a entrevista começou a ser sobre cobras, o semáforo próximo ao cruzamento com a praça Dia do Senhor fechou. Um motorista impaciente ia se arrastando lentamente e deu o bote na hora errada: um pedestre quase foi picado, digo, atropelado. O sujeito que estava ao volante se enrolou e deu uma buzinadinha como pedido de desculpas. Traiçoeiro, ficou acelerando o carro ao parar em outro semáforo, mais à frente.
Andando e parando mais um pouco, feito tartaruga, logo vi uma anta, animal que tem uma pequena tromba. Estava num Lada (um velho carro russo) e calculou mal o espaço que havia na faixa ao lado. Na manobra, quase trombou com o veículo da frente.
Pelo retrovisor, ainda em velocidade de cágado, vi um chimpanzé sobre uma moto pulando de faixa em faixa. A tática deu certo até ele dar de cara com um leão esparramado por quase duas faixas no acesso para a 23 de Maio. O motorista da pick-up baixou o vidro e rugiu alguma coisa para o “macaqueiro”. Não pude ver a reação, mas acho que ele ficou com cara de mico.
Um pouco depois do prédio do Detran, avistei um pavão. A chuva diminuiu um pouco, ele abriu a janela e pôs o braço para fora. Imponente, o sujeito fazia gestos expansivos ao som ensurdecedor de música eletrônica. Para não ficar muito perto dele, fui gentil e abri caminho para um lobo que estava a ponto de uivar à procura de uma brecha para passar. Ela me agradeceu. Isso mesmo, era “uma loba”.
No meio da chuva, vi o painel eletrônico da CET anunciando: PISTA MOLHADA. Acho que não preciso dizer em qual animal pensei. Mas o aviso de que a chuva molha trouxe alguma sorte. O aguaceiro diminuiu e logo o trânsito melhorou.
Foi a senha para um “salve-se quem puder” no meio da selva. De todos os lados surgiam leopardos, onças, panteras, coelhos, gazelas, cervos, camelos, girafas e até elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Todos, incluindo os “macaqueiros”, querendo recuperar o tempo perdido.
Voltei a ser tartaruga na Marginal do Tietê, onde deu zebra. Perto da ponte da Vila Guilherme, parado na terceira faixa, não fui visto por um “caminhão urso”, que me acertou na lateral ao tentar sair da segunda faixa.
Descemos no meio da chuva que voltou a apertar e eu disse cobras e lagartos ao sujeito que, percebendo a bobagem que havia feito, quis esconder a cara feito avestruz. Os outros bichos que passavam não paravam de olhar para nós. Fiquei com um pneu estourado, que o rapaz fez questão de trocar. Como animais civilizados, anotamos nomes, telefones e placas e seguimos em frente no congestionamento. Fiquei com humor de corvo pensando no transtorno e imaginando se ele não tentaria me aplicar o drible da vaca ao receber minha ligação.
Aumentei o rádio de novo e o Parron conversava com crianças que visitavam o Zoológico, quase no encerramento do programa. Pensei nos meus filhotes. Que eles continuem sendo bichinhos dóceis e amáveis nesse mundo animal!

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