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Sai pra lá, urubu!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h18

Publicado pela 1ª vez em 13/12/2008
O sentimento de culpa é, quase sempre, um mau conselheiro. Estou cansado de saber disso, mas não consigo escapar dessa implacável perseguição. O danado me pegou de jeito de novo e ficou martelando na minha cabeça:
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
Ele está sempre à espreita, vendo e ouvindo tudo. Invade a nossa privacidade sem pedir licença e se intromete nas conversas sem ser chamado. Quando a gente vê, já está lá, todo auto-suficiente, ditando regras e batendo o pé até ser atendido.
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
O nefasto se manifestou outra vez depois de bisbilhotar uma conversa que tive com a minha mulher (O que mais que você viu e ouviu, hein? Fale agora! Eu quero saber!). Não tenho nada a esconder, mas ele, impassível, nem deu bola para a pergunta e só insistiu na ladainha.
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
A frase em forma de torneira pingando surgiu depois que o penetra acompanhou uma cobrança feita por alguém que, de verdade, se preocupa com o meu bem-estar.
– Você está ficando sedentário. Põe o tênis e vamos caminhar na praça.
– Ah, hoje não… Tô cansado… E tem um vento gelado lá fora.
– Vamos, vai…
– Amanhã, amanhã a gente vai…
O pior é que o tal sentimento de culpa não se manifesta na hora. A presença dele sequer é percebida. Só aparece quando você menos espera.
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
Eu estava com fome (o enxerido também sabe se aproveitar das nossas fraquezas) e ele queria que eu fosse a pé a uma padaria perto do trabalho. Perto de carro. A bordo de um par de tênis parece um pouco distante para os meus padrões. Mas por alguns instantes fiquei confuso e privado da minha noção de distância.
Amarrei os cadarços meio frouxos, respirei fundo e iniciei minha jornada por algumas ruas do Morumbi. Foi uma caminhada de 20 minutos com obstáculos inesperados para alguém fragilizado pelo estômago a roncar e pelo mau conselheiro a vociferar.
O primeiro dos percalços foi justamente o calçamento, muito irregular. Por pouco não torci os pés, que olhavam para um lado e iam para o outro. Houve um momento em que os dois quase ficaram virados para dentro, frente a frente, como numa célebre foto do ex-presidente Jânio Quadros, anos depois repetida por Fernando Collor.
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
Perigosíssimas e ameaçadoras árvores, com raízes esparramadas, também surgiram pelo caminho. Uma delas parecia uma lombada e por pouco não arrebentei os amortecedores, indo para o abraço ao tronco. Consegui evitar o encontro sob os olhares de um vigia que de dentro da guarita achava graça daquela cena.
– Vai cara, vai lá. É pertinho…
Mais à frente, outra armadilha igual. A sorte é que sou muito esperto. Comigo não, troncuda! Desviei rapidamente para rua e ouvi uma gentil buzina acompanhada de uma singela frase com duas palavras: a primeira começava com “p” e a segunda com “c”.
– Vai cara, vai lá. Já está pertinho…
Refeito daquele quase atropelamento, avistei um simpático pit bull, que levava o dono para passear. Acho que ele (o cão) não foi com a minha cara, mas logo fui acalmado por quem ele puxava.
– Ele não faz nada, pode ficar tranqüilo.
Andei mais um pouco e percebi que era mentira de dono fiel ao cachorro. Mentira, mentira, mentira! Ele (o cão) fazia muita coisa, sim. E deixava tudo pelo caminho. Tive muita elasticidade para não pisar naqueles montinhos. Só não sei como nessas horas sempre tem um vigia dentro de uma guarita achando graça da situação.
– Vai cara, vai lá. Já está pertinho…
Quando já estava próximo do destino, quase fui coberto por uma nuvem de poeira levantada por um caçambeiro a serviço de um condomínio. Tive muita presença de espírito. Fui rapidamente para a rua, driblei um carro e voltei para a calçada dando um chapéu no último dos montinhos (na verdade, o primeiro, já que eu estava no contrafluxo daquele caminho, digamos, privativo, do pit bull que levava o dono para passear e descarregar a tensão).
Finalmente, avistei o oásis em forma de padaria e lá fiquei por uns 40 minutos. A volta foi bem mais tranqüila. Já conhecia todos os obstáculos, fiz o percurso em apenas 17 minutos e não vi sarcasmo na fisionomia dos vigias.
Só não achei lixeira para jogar uma embalagem de chocolate. Recorri ao cesto de uma banca de jornais e o dono fez cara de bravo. Ele vendia o mesmo produto lá.
A caminhada me fez ver que minha mulher tem razão. Vou parar de arranjar desculpas para a preguiça. Não quero mais ser atacado pelo sentimento de culpa. E não é que o danado ouviu o meu pensamento?
– Viu cara? Era pertinho…
Pertinho? Fiquei com os pés inchados! Da próxima vez que ele aparecer vou deixar o intruso cair em cima dos montinhos deixados por um pit bull, bem em frente da guarita de um urubu-vigia.

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