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Rei Salomão do Rádio

Haisem Abaki

11 Fevereiro 2019 | 08h30

Era dezembro de 1998. Minha filha tinha acabado de nascer, mas precisou ficar um pouco mais na Maternidade e fui pra casa com meu pai buscar algumas coisas para o prolongamento da internação. Eu já tinha saído da CBN e sido contratado pela Bandeirantes. O combinado era esperar a chegada dela ao mundo e começar a trabalhar cinco dias depois do nascimento.

No caminho, meu pai puxou uma história batida, que eu já ouvia desde criança. Falava sobre um “batrício” nosso, mas demonstrando muito mais entusiasmo e contando os dias pra eu começar a trabalhar com ele. Fora isso, nenhuma novidade. O “turco”, ao ouvir o Salomão Ésper no Rádio, dizia “de vez em sempre” que ele era de origem síria como nós. E eu já sabia o que vinha depois. Os Ésper viviam numa aldeia nas montanhas e desciam pra comprar mantimentos no armazém do meu avô, à beira-mar.

Mas naquela tarde a história repetitiva teve mais alguns detalhes. Fiquei sabendo que os Ésper eram todos altos, muito alegres e contadores de histórias e piadas. Ah, e muito acolhedores também. E terminou me dando um aviso: eu receberia um abraço ao dizer ao Salomão ser um filho de sírios.

Achei aquilo um exagero de ouvinte. Tenho na lembrança o dia em que meu pai ligou o Rádio em 1978, triste com a morte do Vicente Leporace, pra saber o que a Bandeirantes colocaria no ar em seu lugar. E assim virei ouvinte por tabela de Zé Paulo, Salomão e Joelmir, ainda sem entender muito bem o que diziam, mas apreciando o bom Português que o “batrício” demonstrava e defendia, com veemência e graça ao mesmo tempo. O Zé eu já era obrigado a ouvir mais cedo, acordado por aquele gato que me tirava o sono. Aos poucos, comecei a formar opinião e percebi que nem sempre concordava com eles nas questões políticas e, com exceção do Joelmir, nas futebolísticas também.

Dias depois, minha filha foi para casa e eu me apresentei para a nova jornada profissional. E logo vieram os primeiros encontros com “os velhos” da Bandeirantes. Uma turma que eu ouvia desde criança, como o trio do Gente, Antonio Carvalho, Muíbo Cury, Lourival Pacheco, Walker Blaz, Milton Parron, Cláudio Zaidan, Vinícius França e um que eu conhecia bem, o Zé Nello, com quem tinha trabalhado na CBN.

Todos foram muito receptivos, mas o Salomão me chamou a atenção porque, de cara, se cumpriu a “profecia” paterna. Primeiro, quando veio aquele sujeito alto na minha direção. Depois, recebi um abração ao falar das nossas origens em comum, mas fiquei sem jeito de, logo na primeira vez, fazer referência aos Ésper das montanhas. E nem daria tempo naquele momento porque o Salomão já emendou uma piada sobre libanês, daquele tipo que os brasileiros fazem com os portugueses.

E em quase 13 anos de convivência diária foi assim o tempo todo. Ele sempre me puxava pelo braço e se enganchava comigo pra contar anedotas e relembrar histórias picantes. Mas também vieram muitos papos sérios, conselhos, confidências e telefonemas preocupados em situações difíceis. Enfim, era a doçura do cara com quem eu nem sempre concordava, mas com respeito mútuo e até cumplicidade. Por isso, em 2010, quando estive lá em cima, na aldeia dos Ésper na Síria, liguei pra ele e ouvi boas gargalhadas.

Tudo está na memória e no coração e despertou sexta-feira passada, dia 08 de fevereiro de 2019, quando o Salomão anunciou a despedida dos microfones da manhã e o início de uma nova fase, com um comentário diário à tarde. Disse que tudo tem um fim e que não era preciso fazer drama nem solenizar a saída do programa que fez por mais de 40 anos.

Com humildade, sabedoria e leveza, sem a tentação de esperar pelos 90 anos, que chegam em outubro. E com a altivez de quem tem as origens nas montanhas da Síria. Ainda bem que ele vai continuar descendo pra nos contar boas histórias aqui embaixo. É o Rei Salomão do Rádio. E da vida. Peremptoriamente! E para sempre no proscênio!