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Redondo ao quadrado

Haisem Abaki

19 de abril de 2013 | 16h55

Um moleque que é minha versão melhorada comemora uma data redonda marcante: a primeira década de vida. E o carinha já se acha no direito de reivindicar assento no banco da frente do carro. Na ausência de alguém com maior quantidade de números redondos no currículo etário, ele toma conta do pedaço. Na última vez em que foi me buscar, o atrevido usou o polegarzinho pra apontar o meu lugar, lá atrás.
Outro sinal do peso da primeira idade redonda é que, aos poucos, o garoto tímido está se soltando mais comigo. Agora ele esboça alguns diálogos que vão além do “Hã, hã” quando a resposta é sim e do “Ã, ã” ao dizer não.
O sujeitinho já me conta coisas da escola sem eu perguntar e comenta assuntos que acompanha no noticiário no rádio e na TV. Para a idadezinha, tem um vozeirão… Mas a maior desenvoltura verbal é para descrever os lances de jogos do Palmeiras e do futebol no colégio.
O entusiasmo do rapazinho me trouxe a lembrança da primeira idade redonda que fiz. Já tenho quatro e estou a caminho da quinta. O momento em que completei dez anos ainda é triplamente inesquecível para mim: tive três grandes “decepções” com meu pai.
Era 1974, ano de Copa do Mundo. A primeira desilusão de menino redondo aconteceu em meio ao clima de expectativa para um jogo. Um motorista parou o carro e perguntou onde ficava uma rua. Meu pai pensou, pensou, pensou e pediu desculpas, dizendo que não podia ajudar. E eu achava que ele sabia tudo…
Depois, em dia de Brasil em campo, levei um tapa na boca do homem de quem nunca tinha apanhado. Eu tagarelava na hora do Hino Nacional e o sírio que todos chamavam de turco ficou muito bravo. Junto com a mão veio a ordem para ficar quieto e respeitar o hino. Achei estranho porque o país era “meu” e não “dele”, mas obedeci. Obedeço até hoje…
E pra completar a frustração, vi aquele cara de sotaque carregado ir para o quarto e chorar depois de a Seleção perder a chance de conquistar o tetra, derrotada pela Holanda. Não imaginava que meu pai chorava…
Na minha segunda idade redonda, o turco ficou irritado e emocionado de novo, mas eu já havia me acostumado com aquele temperamento. Estava eufórico com a campanha das “Diretas Já” e não gostou quando a proposta foi barrada pelo Congresso Nacional.
Dez anos depois, na minha terceira idade redonda, já falando mais português do que árabe, ele pulou e chorou porque finalmente o Brasil chegava ao tetra. Alegria que se misturou com a eleição presidencial. O quase “ex-estrangeiro” não tinha direito de votar, mas ficava contagiado com o ambiente “democrático”.
Na minha quarta idade redonda, a última com a presença do meu pai, “combinei” uma festa-surpresa com a nora do turco. E naquela noite ele apareceu mais uma vez com lágrimas e sorridente. Dizia estar feliz por me ver com a neta e o neto dele e ao lado de bons amigos.
Todas essas lembranças vieram enquanto eu caminhava pela estação Palmeiras-Barra Funda (ô nome bonito…) e fui parado por uma senhora pedindo uma informação. Ela tinha um papel na mão e queria chegar ao endereço escrito lá. Rua Barão do Bananal… Pensei, pensei, pensei e pedi desculpas, dizendo que não podia ajudar. Sugeri que ela procurasse algum funcionário do Metrô.
Fiquei aliviado por não ter meu filho por perto naquele instante. Mas depois percebi que não seria o causador de mais uma decepção infantil. Ele já me socorre em algumas “atividades informáticas”. Também quebra o meu galho quando brigo com o controle remoto, sem entender a utilidade de todas aquelas “funções”. Percorre com rapidez os atalhos do celular. Ganha de mim nos poucos “games” em que me aventuro a enfrentá-lo. Já consegue me dar uns dribles com a bola e eu nem me arrisco a desafiar o espertinho no pingue-pongue e na sinuca. No máximo no pebolim…
Com tantas habilidades assim, localizar uma rua é moleza para o garoto com dez anos de experiência acumulada. É só clicar no Dr. Google, o Oráculo. Minhas fraquezas não têm potencial para desiludir o moleque. Até com “suor nos olhos” ele já me viu…
Ainda na estação Palmeiras-Barra Funda (ô nome lindo…) concluí que tive mais sorte do que o garoto decenário e o avô octogenário dele nas duas pontas da vida em que estou no meio. Saí no lucro como filho e como pai. Tenho certeza absoluta! Desta vez, não estou redondamente enganado…