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Raios duplos

Haisem Abaki

26 Fevereiro 2016 | 09h56

O céu estava carregado, pesadão mesmo, com nuvens escuras. Um aviso que ignorei. Troquei de roupa e fui correr. Não era apenas teimosia de viciado em deixar a rua para trás e sentir o vento na cara. Já tinha desistido outras vezes e visto o tempo abrir. Apostei que aconteceria de novo e parti.

Ao completar o primeiro quilômetro, pensei em voltar. Mas os pés rebeldes deram de ombros para o cérebro e seguiram em frente. Mais uns 500 ou 600 metros e decidiram mudar o trajeto. Em vez de ir até o fim da avenida e pegar uma estrada à esquerda, resolveram virar à direita e entrar no parque.

E o mundo desabou pra valer ainda na primeira volta na pista, com menos de três quilômetros corridos. Com chuva fraca é muito bom e dá uma sensação gostosa. Mas com temporal não tem jeito de correr. Vieram os estrondos dos trovões e apareceram os primeiros raios.

Havia uma área coberta por perto e logo estava protegido. A voz do aplicativo registrou a interrupção do treino, mas continuei com a música nos ouvidos. Até aumentei um pouco mais o volume por causa do barulho do dilúvio. Não foi suficiente pra me desligar do som celestial.

Nem pra deixar de ouvir, sem querer, é claro, a conversa de dois sujeitos que também estavam ali, abrigados da chuva. Era uma discussão acalorada e eles me pareceram familiares. Até acenaram com a cabeça… E me veio a lembrança. Já tinha visto os caras há alguns meses, no mesmo parque, debatendo sobre os panelaços. Um a favor, outro contra.

O repertório deles não mudou muito no nosso novo “reencontro”. A diferença é que desta vez estavam sozinhos, sem os respectivos cachorrinhos. E a conversa era menos amistosa, já que naquele diálogo sobre as panelas ainda havia um humor sarcástico.

A polêmica da vez envolvia dois dos nossos ex-presidentes: o sociólogo e o operário. Peguei o papo em andamento, mas eram assuntos do momento: sítio, tríplex, amante, dinheiro, corrupção… Os debatedores pareciam disputar o campeonato em que estava em jogo o título de partido mais nefasto.

Cada um apresentava os seus “argumentos” para “provar” que o pior era sempre “o outro”. Enfim, um papo de arquibancada e de boteco, não muito diferente do fanatismo que impera por aí, nas ruas e nas redes “antissociais”.

Pra minha sorte, a chuva foi diminuindo e logo pude reiniciar a corrida e deixar aquela enriquecedora discussão para trás. Antes da retomada ainda vi um raio que me deixou um pouco hesitante. Como nos últimos minutos “dois raios” já rondavam a minha cabeça, achei que não corria mais riscos e acelerei.

Algum tempo depois cruzei de novo com os dois amigões, que já faziam uma caminhada. Ainda estavam em um intenso debate, mas o clima parecia mais cordial. Fiquei curioso e até reduzi o ritmo um pouco pra ouvir. Estavam nervosos, agitados, mas já não brigavam mais. Pelo contrário, tinham a mesma opinião.

Enfim, depois de tantos raios e trovões, surgiu a concórdia. Os dois defendiam abertamente a mesma ideia, sem acusações de golpismo. Queriam o “impeachment”. E não era um só. Pelo afastamento imediato e sem direito de defesa. Fora, Michel Bastos! Fora, Centurion! Unidos em torno da nação! Da nação são-paulina! E eu achando os caras sem noção…