As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quem vê cara não vê estômago

Haisem Abaki

05 Fevereiro 2016 | 09h53

Na porta da padaria, dois fregueses chegam juntos de lados opostos e ficam parados, cada um dando a “preferencial” para o outro. Momento de impasse, hesitação, suspense… Até um deles, que vou chamar de “Cliente Número 1”, gentilmente insistir, com um gesto manual, pela entrada em primeiro lugar de quem terá a identificação aqui de “Cliente Número 2”, que responde com um sorriso de agradecimento.

Lá dentro… Espera aí. Esse negócio de “Cliente Número 1” e “Cliente Número 2” vai ficar muito extenso. Então, a partir de agora serão apenas C1 e C2. Bem mais simples e prático assim. Lá dentro, C2 se acomoda em uma cadeira diante do balcão e C1 resolve ir para uma mesa.

C2, com muita simpatia, dá boa tarde a um funcionário e pede o cardápio, que começa a folhear delicadamente, virando cada página com cuidado. Parece ler com extrema atenção cada item.

C1 é reconhecido e cumprimentado pela sorridente garçonete que sempre o atende. A moça vai buscar o cardápio, mas ele agradece educadamente dizendo que não é necessário. A atendente quer saber se é pressa e C1 a tranquiliza explicando que não. Aí ela até puxa papo perguntando se ele está de folga.

No balcão, C2 continua com seus movimentos leves e os olhos parecem captar atentamente tudo o que acontece em volta. Passa a mão nos cabelos e balança a cabeça para C1 ao vê-lo conversando animadamente com a garçonete.

Do outro lado, C1 pergunta sobre um determinado prato para tirar uma dúvida sobre um acompanhamento e ouve as opções disponíveis. C2 também chama o balconista e aponta para o cardápio pedindo algum esclarecimento.

Feitos os pedidos, começa a espera. C2 mexe no celular e digita de vez em quando. C1 também dá uma olhada no aparelho e divide a atenção com a TV ligada na padaria cheia e com aquele ambiente tradicional de alegria e barulho.

O pedido de C2 chega primeiro. Antes de iniciar a degustação, observa o prato como se estivesse planejando a melhor forma de consumi-lo. Logo depois também vem um copo longo. Os gestos continuam delicados e graciosos.

E chega o prato de C1, que àquela altura, talvez por causa do cheirinho bom vindo do balcão, já está com muita fome e vai direto ao assunto, iniciando os trabalhos sem cerimônia. C1 termina enquanto C2 permanece com a mesma leveza de movimentos.

C2 é uma morena magra de olhos escuros e cabelos longos. Muito simpática diante de um sandubaaaaaaço com hambúrguer, queijo, muito ketchup e a companhia de umas batatinhas fritas. Ao lado, um copão de suco de laranja com uns envelopes de açúcar que ela acrescentou sem perder a graça. Manteve a compostura o tempo todo e até se despediu de C1 balançando a cabeça no momento em que ela ia embora.

O branquelo C1 comeu um filé de frango grelhado, arroz integral e legumes. E tomou um refrigerante zero. Apesar do prato leve, não tinha gestos delicados. Ah, mas também é um cara gentil e educado. E magro, vai… Só que a modéstia não me permite revelar mais detalhes da figura. Não tenho estômago pra isso.