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Quem cochicha a pena espicha

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h21

Publicado pela 1a vez em 20/03/2008 20:49:38
Sentado em seu troninho, um menininho passa o tempo com um gibi do Chico Bento. Ele ainda não sabe ler, mas constrói a história pelas figuras. Depois de algum tempo, ecoa um grito que sai do banheiro, se espalha pelo apartamento e, certamente, chega a outros andares do prédio:
– Mãããããããããããããe, terrrrrrrrrrrrrrminei!
Impaciente, ele não aceita a demora por menor que seja e insiste:
– Mãããããããããããããe, terrrrrrrrrrrrrrmineeeeeeeeei!
O rapazinho é exigente e seletivo. Se ela está ocupada e eu tento ajudar, ele recusa e aumenta o tom e a potência:
– Eu não quero você, eu quero a mamãe. Mãããããããããããããe, terrrrrrrrrrrrmineeeeeeeeeei!
Um dia estávamos sozinhos. Ele no troninho com seu gibi. Eu, multimidiático, ouvia rádio, acompanhava o noticiário da TV e lia e-mails, tudo ao mesmo tempo:
– Paaaaaaaaaaaaai, terrrrrrrrrrrrrrrrminei!
Fui rápido e chamei a atenção dele:
– Eu e o prédio todo já sabemos que você terrrrrrrrrrrrminou! Fala mais baixo!
Ele sorriu meio envergonhado e logo mudou de assunto. Começou a contar uma história do Chico Bento.
Eu ainda estava com as notícias na cabeça. Um político prestava depoimento e negava envolvimento com o mensalão. Outro admitia culpa e fazia um acordo com a Justiça. Um parente de um famoso traficante foi preso no Paraguai.
Percebi que os três tinham um ponto em comum: os nomes no diminutivo. Comecei a pensar como foram na infância. Será que também gritavam e eram repreendidos pelos pais? Como cresceram e se envolveram nos crimes pelos quais são acusados? Quando deixaram de ser amáveis crianças a gritar e passaram a ser adultos a falar baixo, bem baixinho?
De repente, encontrei a solução para todos os males do mundo. Bastaria criar uma nova lei.
– Artigo 1o: A partir de hoje, fica proibido falar baixo, murmurar e cochichar.
– Artigo 2o: Quem descumprir a referida lei será detido em flagrante e ficará sujeito a penas que variam de 5 a 15 anos de prisão.
– Artigo 3o: Se o acusado for político, as penas acima citadas serão aplicadas em dobro.
– Artigo 4o: Ficam isentos do cumprimento desta lei os surdos-mudos, normalmente mais honestos, e os fiéis no confessionário, já arrependidos de seus pecados.
Teríamos alguns problemas em locais como teatros, cinemas, hospitais e salas de aula, mas valeria a pena em nome da honestidade e da transparência.
Com todos sendo obrigados a falar alto, principalmente os políticos, acabariam os desvios de dinheiro público, as licitações fraudulentas, a troca de votos por cargos, as traições. CPIs no Congresso e operações da Polícia Federal não seriam mais necessárias, gerando mais economia aos cofres públicos.
Coube ao menininho do troninho me acordar desse sonho maluco e irreal:
– Pai, o Chico Bento também faz cocô?
– Faz…
– Todo mundo faz?
– Todo mundo…
Enquanto ele entrava no banho, concluí que o fisiologismo jogaria uma lei como essa no cesto de lixo. Não precisamos de mais leis para mandar coisas erradas para o ralo.
O chuveiro é desligado e logo vem o grito:
– Paaaaaaaaaaaaai, terrrrrrrrrrrrrrrrminei!
Depois de enxugá-lo e vestí-lo, deixei os luizinhos, silvinhos e fernandinhos de lado e fui mexer nuns cds. Caiu em minhas mãos Gonzaguinha, um gigante, apesar do diminutivo:
– Eu fico com a pureza da resposta das crianças!

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