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Que zona eleitoral é essa?

Haisem Abaki

03 de outubro de 2014 | 06h37

Já faz mais de 30 anos que sou um cara com manias eleitorais gratuitas. Meu transtorno começou em 1982, aos 18 anos. Tenho a desculpa de que eram outros tempos, de que era “mais idealista” e de que estávamos saindo aos poucos de uma ditadura… Então vamos lá, sem rodeios. Foi a partir daí que comecei a acompanhar debates e os programas dos candidatos no Rádio e na TV. Não perdia nada.
Quatro anos depois, o gosto esquisito pelos embates e pelo blá-blá-blá ganhava mais um pretexto, a obrigação profissional de jornalista de estar atento a um momento tão importante. E até que não era mentira, não. Mas eu ficava ligadão porque adorava aquele falatório todo e o ambiente da disputa. E havia ainda a “curtição” de fazer a cobertura seguindo os candidatos e de trabalhar o dia inteiro na eleição, virando a madrugada até a contagem final dos votos em cédulas de papel.
Meu envolvimento era tanto que até hoje tenho na memória vários jingles, independentemente das minhas preferências ideológicas. A campanha presidencial de 1989 foi rica em “bons grudes”. Um dos “doces chicletes” que sinto colados é o “Collor, Collor, Coooollor!” (e não votei “nelle”). Outro simpático era o “Bote fé no velhinho”, do Ulysses Guimarães, que no final dizia “vai limpar o Brasil do Oiapoque ao Chuí e acabar com a molecagem que tem por aí”. Até o infantil (porque eram crianças cantando) “Lá, lá, lá, lá, lá Brizola” ainda toca no meu cérebro aqui…
Tinha ainda o do Afif, o “Juntos chegaremos lá”, com um monte de mãos se entrelaçando. E também o “Garra, fé e coragem pra vencer. Muda Brasil que eu quero ver”, do Mário Covas. Sem contar o inesquecível e emotivo “Lula lá” com uma multidão de artistas cantando. Ainda acho esse o melhor, mas as “circunstâncias” mudaram e agora Sarney, Maluf, Renan e até o Coooollor estariam no corinho e ninguém ficaria corado por causa disso. Todo mundo junto e misturado.
Nas eleições de 94 e 98 ainda entrei no clima e tive que viajar por alguns estados, ora atrás de Lula, ora no encalço de Fernando Henrique. Em 2002, já não era mais “da rua” e ficava “preso” no estúdio. E o prazer foi se transformando em mera obrigação até mesmo nas entrevistas com os candidatos de respostas prontas.
E é essa obrigação que me faz ser alvo de gozações de alguns colegas. Durante o horário eleitoral obrigatório, apresento o programa no Rádio apenas pela Internet e, com o fone em um dos ouvidos, fico na escuta daqueles que querem se doar para salvar a Pátria. Nunca abandonei o vício, apesar de achar que as campanhas ficam mais pobres de conteúdo a cada eleição. Musiquinha? Nenhuma cola, por mais chiclete que seja. De meleca já basta a troca de ofensas e acusações. São tão convincentes que é possível que todos estejam certos, um sobre o outro.
Tentei ingenuamente saber quais eram os programas de governo dos três principais candidatos e percebi que são tão consistentes quanto uma lista de compras de supermercado.
A dona de casa Marina levaria a lista, mas mudaria na hora, acrescentando ou tirando coisas, de acordo com a conveniência.
O dono de casa Aécio iria às compras aos poucos, talvez com várias listas. Num dia as carnes, no outro as verduras e legumes, depois os produtos de higiene e limpeza… Talvez sim, talvez não…
E com a dona de casa Dilma nada de lista. Ela apenas pilotaria o carrinho e decidiria na hora o que levar para casa, achando que já sabe de tudo.
Nos três casos, alguma dúvida sobre quem paga a conta? As prestações duram quatro anos, mas os produtos não aguentam tanto tempo assim. É bom incluir na compra um pregador pra proteger o nariz.
Ainda “decepcionado” (só que não) depois de ouvir atentamente o que todos disseram no precioso tempo no Rádio, na TV e nos debates em que pareciam lutadores de vale-tudo, cheguei a duas conclusões:
1. Estamos vivendo no paraíso.
2. Estamos vivendo no inferno.
Vou procurar um jingle antigo no Youtube pra me consolar. Pode ser qualquer um. Qualquer um mesmo. Até o do Coooollor!

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