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Quando o futuro já era

Haisem Abaki

07 Abril 2017 | 12h46

Esta é uma crônica sobre crianças que surgiu para mim de um jeito inesperado. E eu nem sabia que assim seria. Foi por acaso mesmo. Mas antes de falar de crianças, uma explicação da criança que eu era. Sempre fui fascinado pelas palavras, principalmente as desconhecidas. Ainda criança, já tentava entender o significado delas, em árabe e português. Cadeira, por exemplo, que em árabe se pronuncia “cârssi”. Eu simplesmente queria saber por que cadeira era cadeira. Como alguém decidiu que cadeira era cadeira e não sofá?

E quando descobri que havia um livrão cheio de palavras chamado dicionário passei a ser um buscador voraz que acabava virando leitor, como se ali houvesse uma história. Eu ia procurar uma determinada palavra, via outra, parava, depois, outra, parava pra ver o significado de novo e assim ia quase interminavelmente de palavra em palavra. Às vezes até esquecia qual vocábulo (sempre gostei dessa palavra: vocábulo) originalmente estava procurando.

Com o tempo fui deixando o livrão de lado e migrando para a versão virtual do meu oráculo. E esse mundão digital vai me fazendo abrir cada vez mais janelas, que nem sempre têm a ver com o significado das palavras. E assim chego a leituras, vídeos e músicas sem saber como fui parar ali.

A última vez foi ontem. Escrevo agora forçando a memória e ainda não consigo me lembrar de nada. Só sei que fui parar no Youtube (que palavra descolada!) diante de um vídeo do Cat Stevens. Gosto do cara, mas não por ele ter virado muçulmano e adotado o nome de Yusuf Islam. E me encontrei de novo, depois de muito tempo sem ouvi-lo, com “Father and Son”, uma música em que um velho pai dá conselhos a um filho e tenta se explicar após algumas escolhas.

Primeiro pensei nos meus dois e no que desejo para ela e para ele. E vi como sou feliz, apenas pelo fato de ainda poder desejar algo para aqueles que me fazem continuar neste mundo.

Porque há crianças que nunca serão adultas. Falam línguas diferentes, vivem em nações diferentes, mas nunca serão adultas. Pode ser por causa de uma bala perdida, pela fome, pela falta de educação, pelo desemprego, pela roubalheira dos corruptos, pela ignorância, pela intolerância, pelo fanatismo terrorista, por ditadores sanguinolentos. Pode ser a morte lenta de quem vive num país em guerra e não tem o que comer ou a morte rápida pelas armas químicas. Mas nunca serão adultas.

Fiquei com saudade das minhas crianças de 18 e de quase 14. E peguei o telefone. Ela fazia para a faculdade uma pesquisa sobre o Manifesto do Partido Comunista. E ele preparava um trabalho sobre Nazismo e Fascismo. Parece que não aprendemos nada como seres humanos. Eles ainda são a minha esperança de continuar vivo num mundo em que para muitas crianças o futuro já era. Saudades do velho dicionário. Lá o futuro ainda existe. Bem que o Cat Stevens tinha avisado… Tudo o que você já conseguiu para você vai estar aqui amanhã, mas seus sonhos talvez não.