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Quando a voz entrega tudo

Haisem Abaki

11 de setembro de 2015 | 09h56

No metrô, observo uma garota morena com longos cabelos presos balançando pra lá e pra cá. Na verdade, estava olhando para a porta. Sim, a bela porta, reta e sem curvas. Precisava descer na próxima estação e o “obstáculo” com rabo de cavalo estava à minha frente.

Notei que a moça me encarou algumas vezes, acenando com a cabeça. Repeti o gesto, já que sempre fico em dúvida nessas horas. Como sou distraído, já passei por situações embaraçosas por não reconhecer ou simplesmente “não ver” pessoas conhecidas, como amigos e ex-alunos. Então, na dúvida, dou uma espécie de “meia cumprimentada”. Nessas horas, além da cabeça, as mãos e até o queixo são muito úteis.

Mas a “barreira instransponível” permanecia ali na minha frente e, educadamente, soltei um “por favor, você vai descer na próxima estação?”. Desembarcamos juntos e, ao final da escada rolante, ela se virou pra mim e perguntou se eu era “eu” mesmo. Respondi com muita convicção que eu sou “eu”, sim.

– Achei que era você, mas só tive certeza quando ouvi a sua voz. O meu pai te ouve todos os dias.

Foi só isso. Ah, ela foi muito gentil e falou outras coisas sobre “the voice” e o meu jeito no Rádio, mas sou muito envergonhado pra contar aqui. Tá booom, só uma parte, então. Disse que pareço gostar muito do que faço. Agradeci, mandei um abraço pro pai da moça e demos tchau. Ok, foi no rosto.

Em casa, abro uma mensagem de uma ouvinte querida de muito tempo. Ela diz que aparento estar “num momento de transformação, de bem com a vida e a voz mais solta”. Óbvio que fiquei pensando nessa tal magia do Rádio, que faz alguém que não te conhece e nunca te viu pessoalmente ser capaz de descrever até um estado de espírito.

O que quem está “do outro lado” não sabe, pelo menos no caso do dono desta voz aqui, é que sou um ser que vale muito pouco sozinho. Isso começou com meu pai, que me obrigava a expor argumentos e entrar em discussões cabeludas. “Fala pra fora”, ele dizia, quando eu ficava nos murmúrios e nos resmungos. Darwin Valente e Nivaldo Marangoni, meus primeiros chefes e mestres no Rádio em Mogi, também repetiam a mesma ordem.

O fato é que, na definição de uma alma que parece me conhecer muito bem, sempre tive gente me “mimando”, no bom sentido, eu acho, ainda que às vezes em forma de porrada pra dar uma sacudida. É o que ainda me dá tesão de viver, trabalhar e recomeçar. Ter por perto quem é capaz de entender, apoiar, compartilhar, cuidar, dar umas broncas carinhosas e suportar “uma ou outra” doideira. De vez em quando até com uma ligeira vontade de bater em mim, apesar da doçura na voz e no olhar.

Enfim, alguém muuuito especial a quem serei sempre grato. E para de fazer mi-mi-mi porque você sabe que é você. Do mesmo jeito que sei que eu sou eu. Mas antes devo agradecer a outra pessoa, que me fez perceber isso: a simpática garota do rabo de cavalo do metrô. Tá, eu mereço apanhar mesmo…