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Por um mundo com mais “paidemia”

Haisem Abaki

08 de agosto de 2020 | 11h55

Quando vi parte de Beirute indo pelos ares em uma explosão me veio à cabeça uma imagem que nunca tinha visto. Era um sujeito magro, sorridente, gesticulador, falante e de olhos expressivos que também pareciam falar. Um cara de menos de 30 anos embarcando em um navio italiano rumo a uma terra desconhecida que chamava de “Barazilll”, com um “a” a mais, o “z” no lugar do “s” e som de vários “l” mesmo.

Deixou para trás a família e foi pegar um navio no porto do país vizinho. Deixou também uma vida de dificuldades financeiras e de incertezas em uma Síria recém-independente da França e com políticos autoritários disputando o poder e ameaçadores para jovens com ideais socialistas como os dele. O Sr. Mohamed sempre contava essa história para mim e depois para os netos, mas a imagem do para sempre magrelo e também para sempre trocador do “p” pelo “b” em “Bortuguês” naquele momento de embarque para uma nova vida nunca tinha me passado pela mente.

Na viagem de um mês, 1954 virou 1955 e ele chegou aqui em janeiro de um novo ano, empanturrado de comer tanto macarrão no navio italiano. Da longa travessia, sobrou apenas o “trauma” de evitar macarrão pelo resto da vida. Às vezes comia rindo e dizendo que era ruim. Mas comia, fingindo caretas forçadas. Nunca mais foi embora daqui, apesar de a nova terra também ter virado anos depois um lugar perigoso para um cara ainda jovem e ainda de ideais socialistas.

Mas na verdade, mais do que uma ideologia, ele tinha a prática. E a prática era socializar, ser sociável, viver em sociedade. Numa terra estranha, era normal os “batrícios” se juntarem em comunidades fechadas para preservar seus costumes. E até o fim da vida ele preservou os costumes, como o de colocar o tapetinho voltado para Meca e orar cinco vezes por dia. Mas nunca foi fechado. Sempre foi aberto para tudo e para todos.

Ao lado da mulher, que veio da Síria anos depois, enfrentou preconceitos com firmeza e bom humor, como quando colocou o filho pra estudar em uma escola católica e disse aos amigos que o repreenderam que havia feito isso porque não havia escola muçulmana na cidade. E gostava de abrir a casa para festas nas quais ele fazia inevitáveis discursos de integração entre muçulmanos, cristãos, espíritas, ateus…

Tinha posições políticas fortes, que defendia com veemência e olhos arregalados, mas era tolerante com quem pensava diferente. Com umas cutucadas de ironia, mas tolerante, sem querer impor a sua verdade. Até cachaça e cigarro o muçulmano comprava para receber amigos apreciadores de líquidos e tabacos. E fazia isso apesar de nunca ter tomado um gole ou ter dado um trago.

Falava com todos na rua e na calçada de casa, mas tinha uma clara preferência por puxar papo com lixeiros, carteiros e pregadores evangélicos que batiam à sua porta. Uma noite, diante de um grupo de lixeiros, se virou para mim, ainda menino, e disse que as pessoas que tinham aquela profissão eram essenciais para a nossa vida e mereciam o nosso respeito. Um deles, sem jeito e apontando para o uniforme, disse que se pudesse daria um abraço nele. Foi imediatamente surpreendido pelo abraçador contumaz.

Todas essas lembranças foram causadas por uma tragédia. E também por ter visto minha filha depois de quase cinco meses. Juntos, controlamos o instinto do beijo e do abraço. Ouvir que estava gostoso o pão que fiz para ela e o irmão substituiu a imensa vontade desse contato. Mas fiquei feliz por meu pai ter entrado naquele navio em Beirute. Fiquei feliz por ser filho de um cara firme em seus ideais, mas tolerante com o “diferente”. Fiquei feliz por ele ter me feito passar “vergonha” com aquela mania de beijar e abraçar a todo instante e na frente de todos, não importando o momento nem o lugar.

A “paidemia” em que vivi a vida toda sempre me ensinou a me colocar no lugar do outro e a entender seu sofrimento. Isso tudo tem sido importante agora, nesses tempos estranhos de pandemia e isolamento. E me dá serenidade diante de intolerantes adoradores de líderes falsos e irresponsáveis que enxergam a culpa sempre no outro, invocam hipocritamente o nome de Deus e têm curas milagrosas para todo o mal, se colocando como representantes do bem na Terra.

Ironia do destino e da língua de moleque reclamão, herdei do meu pai a “beijação” e o “abraçamento” compulsivos. O resto eu tenho tentado como ideal de existência, mas não pretendo ser réu e juiz de mim ao mesmo tempo. Meus filhos que tirem suas conclusões e sigam aprendendo com as lembranças do avô. E que se preparem para beijos e abraços por toda a vida. É a minha sentença…

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