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Planejamento cirúrgico

Haisem Abaki

27 Maio 2016 | 13h23

Nada como uma internação repentina pra fazer a gente perceber o amor em volta. Se no pacote vier uma cirurgia de emergência, a comoção é dobrada. E se for bem no dia do seu aniversário é a glória total de uma existência, com um oceano de mensagens carinhosas e demonstrações explícitas de afeto. Foi por isso que “planejei” cirurgicamente sentir muita dor nessa data.

Na verdade, a tal dor já vinha se arrastando há algum tempo, assim como a minha teimosia em procurar algum tratamento alternativo e em, às vezes, me utilizar da “deixapralaterapia”. A primeira manifestação foi em agosto de 2014. Mas tinha eleição e… Depois, novo episódio em setembro de 2015. Mas tinha crise política e… Outro emocionante e dolorido capítulo em abril de 2016. Mas tinha o impeachment na Câmara e… E um filmaço de ação, suspense e terror cheio de efeitos especiais em maio. Mas tinha o impeachment no Senado e…

E assim, na língua do “eduardocunhês”, fui adiando tudo por vontade própria, até decidir, de livre e espontânea obrigatoriedade, que marcaria a cirurgia para depois do meu aniversário. Não contava com a delação premiada das pedras da vesícula, que entregaram tudo e ainda deixaram vazar seletivamente meus gritos de ai, ai, ai. Uma delas, danada, ainda armou um plano de fuga para o fígado e só foi descoberta porque me deixou todo amarelo, como o sorrisinho daqueles caras que juram que é tudo mentira quando têm o santo nome citado em vão em diarreicos escândalos intestinais de corrupção.

Pra piorar, o pâncreas quase foi arrastado pelo mar de pedras. Resultado: 70 horas de jejum para limpeza até a cirurgia e 65 quilinhos na balança. Só aguentei por causa das “coisas” que tomei na veia e porque tenho muiiiiito pensamento positivo. Pensei em coxinha, bolo de aniversário e brigadeiro o tempo todo.  Gorduras proibidas para a vesícula, não para a imaginação, eis o meu lema.

E por mais que os médicos e o mundo digam que a cirurgia é bem simples, que é por vídeo e que logo tudo estará resolvido, a verdade é que não é nada boa a sensação de ver o teto se mexendo de cima de uma maca a caminho do centro cirúrgico. Também é estranho se despedir de quem você ama e saber que ainda estará apagado quando ela receber a notícia sobre como foi a cirurgia. Mas, afinal, estou aqui contando essa historinha de como o boi teimoso que sou dormiu.

Um boi irrequieto, que também passou por momentos bizarros. Como o ataque de coceira durante a ressonância magnética. Incomodado e preso, apertei a buzina. A gentil enfermeira veio logo, mas da minha perspectiva parecia estar em câmera lenta. Perguntou onde coçava e tomou a iniciativa no lugar das minhas bem cortadas unhas. Era na cabeça, perto da “franja” e atrás da orelha esquerda.

Durante a recuperação no quarto, tive uma séria dúvida sobre a cirurgia. No Rádio e na TV, o principal assunto era mais um delator que fez gravações pegando gente graúda. Achei que tinha tirado o estômago em vez da vesícula. E também não estava com saco para aquilo. Aí não! Uma leve conferida me tranquilizou. Tudo no devido lugar para as próximas batalhas.

Bom mesmo é ter o coração turbinado por tantas manifestações de carinho. Não preciso de mais nada de agora em diante. Talvez apenas um regimezinho de engorda. Coxinha, bolo, brigadeiro…

Ah, só um recadinho para o médico do setor de autorizações do plano de saúde, que demorou umas quatro horas pra liberar a internação porque queria falar com o médico do Pronto Socorro que já tinha mandado todos os documentos. Eu entendo a sua desconfiança, cara! Um sujeito se internando no dia do aniversário pra aproveitar as mordomias de um belo hospital com o ótimo atendimento que tive o tempo todo… Muito suspeito! Um “planejamento” cirúrgico mesmo. Me dei bem. Feliz Aniversário pra mim!