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Perigo à vista

Haisem Abaki

11 Dezembro 2015 | 10h00

Dona Miopia, uma senhora que me conhece desde criancinha, voltou a se manifestar. Deve estar ressentida, achando que não a vejo com bons olhos. Fomos apresentados quando eu tinha oito anos e até nos entendemos bem esse tempo todo entre óculos e lentes de contato. Mas confesso que nem notava mais a velha companheira, principalmente depois de ter ouvido do meu oftalmologista a notícia de que ela já havia virado uma quarentona estável e bem comportada.

Minha querida deficiência deu na vista na palma da mão, com um rasgo na lente da esquerda. Por sorte era o olho “menos ruim”. Se fosse com o colega da direita… Ainda bem que ele não teve nada a ver com isso. Era terça-feira e só consegui um encaixe para o dia seguinte.

Cheguei na hora marcada, de acordo com atenta observação feita pelo olho direito, mas logo o mundo se transformou em névoa à minha volta, já que tive que tirar a lente “boa” também. E veio a auxiliar do médico com um lencinho de papel e um pinguinho em cada olho. Sempre detestei a dilatação… Passou um tempinho e lá estava ela de novo com as aterrorizantes gotinhas. Só na terceira rodada percebi a gravidade da situação. Faltavam quase cinco horas para a decisão da Copa do Brasil! Como não pensei nisso antes, sabendo que comigo o efeito embaçador sempre demora a passar?

Exames feitos e tudo bem, sem nenhuma mudança. A lente da direita também já dava sinais de desgaste. Era só encomendar o par e esperar, mas ia demorar por causa do grau alto e do “material especial”. O médico me prometeu uma lente provisória dali a alguns dias.

No caminho para casa uma lembrança me fez voltar 31 anos atrás. Meu pai e eu no calçadão da Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Tinha recebido o primeiro salário no novo emprego e resolvi comprar um “presente” que resolveria um antigo problema dele: um aparelho de surdez. Testes realizados, muita expectativa e chegou a hora. Ele parecia uma criança ao “descobrir” os sons que vinham da rua. No metrô, ao ouvir o barulho do trem e o alto-falante, sorriu e chorou ao mesmo tempo.

Ganhei um abraço apertado e um agradecimento emocionado. E também um conselho cheio de sotaque que hoje entendo muito bem. “Ieu é surdo, mas meu coraçón non é. Bresta atençón no que ieu vai falá bra você: nunca dexa seu coraçón fica surdo. E nien cego! E nien mudo!”. Ainda sou capaz de enxergar as exclamações da expressividade da fala…

Agora sei muito bem o que ele quis dizer. Já sofri desse mal e fui “curado” pela vida. E conheço gente cega, surda e muda de coração. Só que a mesma vida, aquela que tudo ensina, dá um jeito nisso, mais cedo ou mais tarde. É só esperar.

Mas o melhor desse meu dia com “visão meia boca”, foi “ver” o jogo e vibrar com a minha menina e o meu menino dos olhos. O primeiro tempo foi meio nebuloso, mas a visão desembaçou na segunda etapa e, principalmente, nos pênaltis. Nem precisava enxergar nada pra ficar feliz. Nem do título. O colírio para os meus olhos era simplesmente estar ao lado deles. Seria cego de coração se perdesse uma oportunidade assim.

Antes desse momento especial, percorri com cuidado o caminho de quatro quilômetros entre o consultório e a nossa casa. Cheguei são e salvo. Nenhum incidente, tudo tranquilo. Bem, houve um “trupicão” na calçada e quase caí. Sobre a quase queda digo que não teria ocorrido se estivesse no perfeito domínio de minhas “faculdades visuais”. Nada mais. Certo, eu falo. Por pouco não fui atropelado por um carro que não vi. Sobre essa quase hospitalização também digo que não teria acontecido se estivesse no perfeito domínio de minhas “faculdades visuais”.

Ah, também houve um fato… Nada, não. Coisa desimportante… Numa esquina, tive um “encontrão” com uma garota. Sorrisos e desculpas de parte a parte. Sobre esse quase abraço digo que, que… Que defesaça e que golaço do Fernando Prass!