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Para formação de quadrilha

Haisem Abaki

16 de junho de 2017 | 12h27

Primeiro é preciso entender os comandos da voz que conduz a festança.

Anavan ou Avancê – Avançar na propina, no cofre público, no caixa dois ou em qualquer outra forma de se dar bem.

Balancê – Balançar o corpo alegremente enquanto são contadas cédulas de dinheiro vivo. É também uma espécie de grito de incentivo para roubar mais.

Returnê ou Anarriê – Voltar a roubar com volúpia sem se importar com outra investigação semelhante em andamento.

Tur – Dar uma volta no delegado, no promotor, no procurador e no juiz. Em geral dizendo que não sabia de nada ou que tudo foi declarado à Justiça Eleitoral.

Agora vamos aos passos para a quadrilha dançar animadamente e sem se preocupar com prisões, delações e conduções coercitivas.

Fileira – Forma-se uma fileira de políticos e outra de empresários. A primeira tem gente de um monte de partidos. A segunda conta com representantes de vários segmentos, como empreiteiras, frigoríficos, bancos e quem mais quiser. Aí os caras já começam com o balancê de dinheiro pra atiçar quem está do outro lado.

Cumprimentos – Os políticos balançam o corpo, caminham até os empresários e cada um cumprimenta o seu parceiro quase se ajoelhando. Depois, os empresários caminham até os políticos e cada um cumprimenta o seu parceiro levantando o bolso cheio.

Troca de Lado – Políticos vão para o centro e empresários fazem o mesmo. Com os braços levantados e carregando a dinheirama, vão para o lado oposto. E nesse vice-versa o público já não sabe mais quem corrompeu e quem foi corrompido.

Pares ao Centro – Cada par é chamado para ir ao centro e depois volta ao lugar anterior. Ótima oportunidade para combinar acertos de contratos e propinas.

Grande Passeio – As filas se emendam em um grande círculo. Todo mundo roubando de braço dado e balançando loucamente.

Troca de Parceiro – Políticos vão à frente com o empresário seguinte. Depois é a vez de cada empresário fazer o mesmo. Enfim, todo mundo fica com todo mundo em algum momento.

O Túnel – Cada político dá a mão para o seu empresário. Os parceiros vão andando em fila e levantam os braços para a dupla da frente, voltados para dentro, formando um arco. Quem vem a seguir passa por baixo e levanta os braços em arco também. E todos vão fazendo isso pra todo mundo participar de tudo que é construção. Túnel, ponte e o que mais der pra superfaturar.

Anavan Tur – O empresário e o político dançam juntos e depois de uma volta cada um passa a dançar com o parceiro da frente. O comando é repetido até que todo mundo tenha ido com todo mundo, que é pra ninguém reclamar.

Caminho da Roça – Empresários e políticos formam uma só fila. Cada empresário vai à frente do seu político. E todos seguem alegremente no caminho da roça enquanto a vaca do cidadão/contribuinte vai para o brejo.

Olha a Cobra – Empresários e políticos caminham livremente e vão em sentido contrário quando são alertados sobre o perigo, que pode ser algum delegado de polícia.

É Mentira – Mas era alarme falso. Talvez algum vazamento de informação ou boato de delação. Já passou o perigo e todos voltam para a festança.

Caracol – Empresários e políticos estão em uma só fileira. Aí, o primeiro começa a enrolar a fileira, como um caracol. Serve pra misturar todo mundo e despistar a polícia.

Desviar – Teoricamente, seria uma palavra-chave para que o guia execute o caracol ao contrário até todos ficarem em linha reta de novo. O problema é que o pessoal acha que desviar é sinal para fazer outra coisa.

A Grande Roda – Saindo do caracol, a fila volta a ser única. Forma-se uma animada roda com empresários juntos no centro. Depois, os políticos juntos repetem o mesmo comando. Todo mundo paga todo mundo e todo mundo recebe de todo mundo. É uma roda da fortuna mesmo.

A Coroação – A formação original de duas rodas é retomada. Os empresários ficam no centro e os políticos erguem os braços sobre as cabeças deles. Depois, os empresários retribuem o gesto. E todos ficam felizes e coroados.

Duas Rodas – Os empresários levantam e abaixam os braços sem enlaçar os políticos. Também serve para despistar a investigação ou como ameaça de delação, mas logo voltam a formar duas rodas parceiras.

Reformar a Grande Roda – Os políticos andam de costas e se colocam entre os empresários. Todos se dão as mãos e a roda gira para a direita ou para a esquerda, com todo mundo lucrando.

Despedida – Os pares de empresários e políticos se formam mais uma vez e saem em galope, fugindo da polícia e acenando para o público bobão. Alguns da quadrilha até são pegos, mas a festa continua. A nossa parte é segurar o rojão.

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