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Papo cabeça transparente

Haisem Abaki

12 de abril de 2013 | 15h02

Cientistas esquentam a cabeça em favor de um futuro melhor para o homem. Homem no sentido de humanidade. Os pesquisadores trabalham em instigantes investigações para descobrir o funcionamento do cérebro humano, essa fascinante, misteriosa e ainda sombria massa que nos habita, cheia de conexões.
A última novidade é a possibilidade de torná-lo transparente, permitindo visualizações que podem ser a explicação para certos distúrbios mentais e a esperança de cura de algumas doenças. Com os camundongos, sempre eles, a técnica já foi testada com sucesso.
Antes, num outro trabalho, com a ajuda de computadores, sempre eles também, os estudiosos já haviam caminhado firmemente no propósito de proporcionar uma “leitura” de imagens que ficam arquivadas lá dentro, como sonhos e cenas de filmes.
Esse negócio de cérebro é tão intrigante que me faz pensar, pensar, pensar… Será que além das intenções científicas e humanitárias, vamos viver para ver o dia em que tudo será desvendado e ninguém mais poderá esconder nada? Não custa exercitar a imaginação do dito cujo.
Num político enrolado, por (mau) exemplo, bastaria um simples exame e pronto. No cérebro de um suspeito de usar a inteligência em favor do bolso, logo apareceriam imagens de estradas, avenidas e túneis ligando dinheiro público a contas no exterior, que ele diz não ter. Pobres camundongos… Mas o sacrifício deles salvaria o homem. Não o acusado. Homem no sentido de humanidade.
Na cabeça de um ditador maluco, poderíamos ver se o sujeito tem realmente a disposição de iniciar uma guerra ou se está apenas blefando com um brinquedinho nas mãos. Pobres camundongos… Mas o sacrifício deles salvaria o homem. Não o doidão do gatilho. Homem no sentido de humanidade.
Da leitura da mente de um governante que anda pisando no tomate, mas jura que a economia vai bem, viria a legenda: “Se segura aí porque a coisa está feia”. Pobres camundongos… Mas o sacrifício deles salvaria o homem. Não o mago dos números maquiados. Homem no sentido de humanidade.
Entre líderes partidários jurando fidelidade e amor eterno em alianças que cruzam bode com rinoceronte, surgiriam as reais intenções de cada um, em meio a sorrisos amarelos. “Eu só quero te usar”. E o outro: “Quando não servir mais eu te dou um pé na…”. Pobres camundongos… Mas o sacrifício deles salvaria o homem. Não o oportunista do voto. Homem no sentido de humanidade.
Ah, mas não vamos ficar só no mundo político. Os avanços também poderiam ser entendidos por um torcedor ao ouvir o jogador do time do coração indo para o vestiário no intervalo de uma partida quase perdida. “O professor vai corrigir as falhas e a gente vai virar esse placar”. Tradução: “Já era. Com esse bando de pernas de pau não dá”. Pobres camundongos… Mas o sacrifício deles salvaria o homem. Não o técnico chamado de burro. Homem no sentido de humanidade. Ou pelo menos a parte da humanidade que irracionalmente torce por aquele time.
E no campo dos relacionamentos, quantos não seriam os benefícios para os casais viverem em paz e harmonia? Naquelas conversas “rápidas” para discutir a relação, as mulheres nem precisariam mais apresentar tantos argumentos. Sem falar muito (será?), elas saberiam logo de cara que o pensamento ali do outro lado é…
Não, isso merece uma investigação muito mais rigorosa. São necessários anos de testes. Décadas, talvez. Séculos, para uma conclusão segura. Um tema como esse deve ser ratificado, bem ratificado, exaustivamente ratificado. Onde estão os nobres camundongos pra salvar o homem de tão traumática experiência? Homem no sentido de homem mesmo.