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Paixonite radiofônica aguda

Haisem Abaki

27 Setembro 2013 | 11h12

Esta semana, talvez por causa do Dia do Rádio, me bateu uma saudade danada de pessoas que não posso mais ouvir. A não ser que consiga ir para o céu um dia e arrumar uma vaguinha na emissora que devem ter montado lá.
Acho que fiquei sob algum impacto das boas lembranças, que viraram sonho à noite. Muíbo Cury e Lourival Pacheco eram os locutores dessa rádio celestial, mas ao despertar não consegui me lembrar das notícias, só das gargalhadas.
No sonho, o Muíbo, como sempre fazia nos nossos plantões de sábado na Bandeirantes, chegava acenando e dando um bom dia maroto, cheio de duplo sentido. “Bum dinha, bum dinha”. E o Lourival, fingindo ser mal-humorado, respondia com o bordão característico, carregado de “erres”. “Mas porrrrrrrrrra!”.
Eles se preparavam para ir ao estúdio onde estava Antonio Carvalho, com aquele vozeirão, mas falando mansamente como de costume. O Carvalhão repetia que “o ser humano ainda é uma criança”. Depois, ao passar o microfone para o Muíbo e o Lourival, se despedia desejando “que o dia de hoje seja melhor que o de ontem e pior que o de amanhã, porque a vida é um eterno para frente e para o alto, não tem para trás”.
Mais tarde, numa mistura de gêneros radiofônicos, vi e ouvi Hélio Ribeiro e Joelmir Beting. O Hélio traduzia uma música, que acordei sem saber qual era, enquanto o Joelmir, de camisa polo verde, fazia caretas para tentar desconcentrá-lo.
Quando o Hélio terminou, foi dar uma voltinha no corredor e deixou o Joelmir no estúdio lendo um comentário econômico escrito à mão, mas a conta era a dos pontos que faltavam para o Palmeiras voltar para a Série A.
Ninguém interagia comigo. Era como se eu não estivesse lá. Mas de repente o Hélio veio na minha direção, perguntou que notícia eu tinha pra falar e deu um sorriso de canto de boca, dizendo um “eu gosto de falar o seu nome”, seguido de uma breve pausa. Era a paradinha para a entonação solene e soltar um “Haisem Abaki”.
Foi quando acordei, com a mesma tremedeira que tive na primeira vez em que ele me chamou ao vivo. Eram três da madrugada e ainda me restava quase uma hora de sono. No caminho para o trabalho, como ainda não tinha sido convocado pra ser apresentador na rádio do céu, imaginei como o meu pai me ensinou a gostar desses caras. E de outros, que para minha alegria estão muito vivos e ainda posso ouvir. Pensei em escrever uma crônica, mas não sabia exatamente o conteúdo. Queria de alguma forma dizer que acredito que o rádio precisa ser feito “de gente para gente”, de um jeito bem pessoal mesmo.
Ainda não tinha ideia de como explicar isso quando tocou o telefone. Era o professor Manuel Carlos Chaparro, da ECA-USP, me avisando que um bate-papo que gravamos já estava disponível. Fui ver e achei que não precisava escrever mais nada. A paciência do professor Chaparro e a benevolência da análise dele me permitiram uma crônica falada. Quem quiser, pode conferir neste link: http://oxisdaquestao.com.br/colunas-integra.asp?col=4&post=598. Será que dá pra aproveitar alguma coisa na rádio dos meus amigos no céu? Só uns trechos pra eu poder entrar na programação enquanto não chego lá…