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Padrão “sei lá” de qualidade

Haisem Abaki

14 Outubro 2016 | 09h07

Depois de um longo período de rompimento, beeeem anterior aos 7 a 1, voltei a ver com “discreta empolgação” os jogos da Seleção Brasileira, aquela da CBF, da camisa amarela. Acompanhei com “tímido interesse” as últimas quatro partidas pelas Eliminatórias da Copa.

Quatro vitórias e o primeiro lugar na classificação já me deixaram em estado de “contida euforia” em relação ao time do Tite. E, do alto da minha suprema autoridade no assunto, já me sinto em perfeitas condições de dar meu parecer abalizado e incontestável sobre o tema.

Meus critérios de análise são muito claros e precisos. Não avalio esquemas táticos, posicionamentos de jogadores, estratégias de trabalho em equipe, jogadas ensaiadas ou discursos motivadores. Deixo esse trabalho, muito mais árduo do que o meu, para os colegas da crônica esportiva.

Antes de revelar o grande trunfo que me capacita a dar a palavra definitiva sobre a Seleção, registro uma pesquisa “científica” que fiz no dia seguinte à vitória sobre a Venezuela. Num parque perto de casa, usei um equipamento de última tecnologia chamado “olhômetro”.

Passei duas horas lá e já estava quase encerrando a coleta de dados quando, após uma hora e 51 minutos de intensa observação, me deparei com um sujeito de camisa amarela. Devia ter por volta de 40 anos. A menção da faixa etária do indivíduo é importante.

Era Dia das Crianças e o parque estava lotado. Fui correr e mal pude caminhar. Estacionamento cheio, congestionamento na avenida de acesso e fila pra comprar uma simples garrafinha de água. E só um cara com a camisa amarela. Só unzinho, isolado na multidão.

Vi várias camisas do Palmeiras. E digo isso sem ser tendencioso. A boa fase explica a exposição. Contei nove do Paleeeestra, duas do Corinthians, uma do Flamengo, uma do Atlético Mineiro e uma do Grêmio. E dois Messis vestidos de Barcelona, além de três do Paris Saint Germain. Numa das trilhas, dei de cara com três palmeirenses e dois “franceses” com a camisa do PSG. Até tive vontade de pegar um empréstimo na Crefisa pra voar pela Emirates…

Mas o meu argumento irrefutável para comprovar que a Seleção ainda não pegou vem do meu comentaristazinho esportivo preferido, de 13 anos.

– Vai assistir o Brasil comigo?

– Sei lá.

Quando o moleque responde assim já sei que não rola nada. É o mesmo padrão que ele usa pra dizer que não quer alface, tomate, cenoura… E no dia seguinte, quando o garoto combinava de assistirmos Palmeiras x Cruzeiro, eu quis saber o motivo do desinteresse pela Seleção.

– Sei lá, pai. Eu gosto… Mas eu fico mais feliz com um gol do Palmeiras do que com um gol do Brasil.

É o resultado das investidas milionárias e nebulosas da cartolagem boleira de falcatruas que já levou alguns “dribladores” para a cadeia. Surge uma geração de “sei lá”, mas talvez muito mais consciente do que a de um sujeito bobão que escreve uma crônica sobre o filho indiferente à Seleção.

Esse carinha é bem mais maduro do que o moleque de 13 anos que eu fui. Não posso reclamar dos bons momentos “patrióticos” que vivi com meu pai, mas acho que me faltou um pouco mais de sei lá, entende?