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Onde só os bravos têm vez

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h43

Publicado pela 1ª vez em 06/06/2008
Era uma noite fria de terça-feira, propícia para um programa a dois com tranqüilidade, sem muita gente por perto. Foi o que pensou meu bom e velho amigo Tadeu ao ligar para a namorada e combinar uma sessão de cinema num shopping. Antes de prosseguir, explico que novamente tive de recorrer a um nome fictício porque Tadeu, outra vez, se meteu em confusão (não sei por quanto tempo mais conseguirei preservá-lo, meu caro). Para refrescar a memória dos leitores, relembro que ele foi protagonista de outra história que contei aqui, ao trocar de cabeleireiro sem dar nenhuma satisfação ao abandonado após mais de 20 anos de fidelidade.
Pois bem, naquele dia, com seu penteado moderninho, Tadeu convidou a namorada para um jantar, seguido de uma sessão do filme “Quebrando a Banca”, às 20h30. Ele chegou ao shopping pouco depois das 18 horas e logo teve uma surpresa na bilheteria:
– A sessão das 20h30 foi cancelada, senhor.
– Como cancelada? Está na programação de jornais, revistas e até no encarte de vocês!
– Deve ter havido algum engano, senhor.
Ao ser informado que a última sessão daquela sala já estava em exibição, Tadeu reagiu com um hábito que, pelo que tenho percebido, adquiriu depois que trocou de cabeleireiro. Com os dois dedos conhecidos como “pai de todos”, ajeitou a franja ondulada jogando-a para trás e para os lados, com o cabelo dividido ao meio.
Ato contínuo, ainda em tom calmo, pediu a presença do gerente do cinema. Minutos depois, apareceu um sujeito com cara de poucos amigos, que segundo Tadeu o olhava de cima para baixo:
– Na verdade, a sessão das 20h30 está reservada para uma empresa, que comprou os ingressos de “Quebrando a Banca” para seus funcionários.
Tadeu estranhou a explicação porque percebeu que o rapaz falava de modo titubeante, gaguejava um pouco e olhava para a moça da bilheteria como se estivesse querendo dizer que a desculpa oficial era aquela.
Já com os primeiros sintomas de Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”, Tadeu reagiu, armado apenas com o dom da palavra (felizmente):
– Mas então como é que vocês divulgam que vai ter a sessão das 20h30? Isso está errado!
– Realmente, senhor. Deve ter havido algum engano…
O tom impassível do funcionário deixava Tadeu ainda mais irritado. Quem passava já começava a encarar o meu amigo, como se fosse “Alien – o Primeiro a Chegar ao Cinema”. Se estivesse com um chicote ali, certamente ele viraria “Tadeu Jones no Reino do Gerente Cara-de-Pau”. Tadeu não aceitou levar chapéu e partiu para o ataque, sempre dotado de sua inesgotável capacidade verborrágica:
– Tá bom. Então eu vou jantar e volto aqui às 20h30 para ver se isso é verdade mesmo. Se for, eu vou embora, sem problemas.
O gerente se enrolou ainda mais diante da fisionomia de Chuck Norris em “Braddock” estampada no rosto de Tadeu e confessou:
– Na verdade, não é uma sessão de “Quebrando a Banca” para uma empresa. Houve uma mudança na programação e a sala está reservada para a pré-estréia de “Sex and the City”.
A essa altura, a namorada de Tadeu já havia chegado e tentava acalmá-lo, mas aos poucos apareciam mais pessoas que, como ele, queriam comprar ingressos para a sessão das 20h30 de “Quebrando a Banca”.
Sentindo-se fortalecido como “Rocky, Um Lutador”, Tadeu não se deu por vencido, nem se intimidou com os seguranças do shopping, que já cercavam aquele grupinho de mais de 20 pessoas:
– Se vocês pelo menos tivessem assumido o erro logo, tudo bem. Mas cada vez que o senhor fala dá uma nova desculpa e mente ainda mais…
Um funcionário administrativo do escritório do cinema percebeu o tumulto, desceu e resolveu tomar conta da situação. Chamou Tadeu reservadamente, pediu desculpas pelo incidente e, como compensação, ofereceu dois ingressos para a sessão de “Sex and the City” e mais quatro como cortesia. A oferta foi feita a todos os que estavam na mesma situação e que tinham em Tadeu seu herói, quase a ponto de virar “O Incrível Hulk”. Ele se acalmou e não rasgou a roupa. Não vi a cena, mas imagino que tenha ajeitado novamente a franja com os dois dedos conhecidos como “pai de todos”. Ouviu a sempre sensata namorada, saiu dali e foi forrar o estômago.
O jantar teve clima de comédia romântica. Diante das ponderações dela, de que havia exagerado no nervosismo, Tadeu reclamou por não ter recebido o apoio que julgava necessário durante o entrevero na porta do cinema:
– Tudo bem se você quiser me criticar, mas não faça isso na frente das pessoas. Deixe pra falar comigo depois.
Acabaram se entendendo, como Jack Nicholson e Helen Hunt em “Melhor É Impossível”. Terminado o jantar, foram para a tal sessão de “Sex and the City”. Tadeu demorou a se concentrar e ainda demonstrou sinais de impaciência com a história que passava na telona. No dia seguinte, ao contar o ocorrido a mim e ao nosso amigo Cristóvão, foi evasivo e nada disse sobre o filme que havia assistido.
Para que Tadeu não pareça um vilão com sua ira quase incontrolável, reitero que ele é um bom sujeito, que apenas perdeu a cabeça numa situação de evidente desrespeito de que foi vítima. Tadeu é um rapaz simples, simpático e que encara a vida de peito aberto. Não é nenhum aloprado. Um bom retrato dele é uma entrevista que fez com o grande Ney Matogrosso. Papo despojado, intimista e gostoso de acompanhar. Esse é o verdadeiro Tadeu que eu conheço! Não é um cara que sai por aí sem motivo cantando “Homem com H”:
Nunca vi rastro de cobra
Nem couro de lobisomem
Se correr o bicho pega
Se ficar o bicho come
Porque eu sou é “home”
Porque eu sou é “home”
Menino eu sou é “home”
Menino eu sou é “home”
(E como sou)…
Quanto ao filme “Quebrando a Banca”, não se preocupe, meu caro amigo. O cara que tenta dar o golpe no chefe do bando que arrebenta os cassinos de Las Vegas percebe, já no final, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Releia os heterônimos de Fernando Pessoa, ajeite novamente a franja com os dois dedos conhecidos como “pai de todos”, aproveite bem os quatro ingressos que ganhou e fique bem na fita, Tadeu. The End.

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