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Olhos que falam

Haisem Abaki

24 Agosto 2018 | 12h55

Uma amiga que ficou quase um mês sem me ver abre um sorriso ao me encontrar e diz que estou “com uma cara boa”. No shopping, comprando capinha pro meu celular, vejo um amigo com quem não conversava há dois anos e ele diz que estou “com uma cara boa”. De uma cafeteria, vem uma voz feminina gritando o nome da figurinha aqui e, depois do habitual “quanto tempo…”, diz que estou “com uma cara boa”.

Fui pra casa me achando o máximo e um amigo passa de carro, buzina, berra o meu nome e faz um sinal de que vai telefonar. Modestamente, imaginei que estava prestes a conquistar o “É tetra, é tetra, é tetra, é tetraaaaaa da cara boa” com narração de Galvão Bueno, mas ele (o amigo) não ligou até hoje.

Apenas três coincidentes gentilezas? Provavelmente, sim. Só que aquela primeira amiga, dias depois, acrescentou “um brilho no olhar” do cara com uma cara boa. Aí ficou demais. Achei que tinha sido descoberto, que todos já sabiam das minhas visitas ao dermatologista e dos cremes faciais preparados em farmácia de manipulação. Não, ninguém sabe e eu não vou contar…

Mas este não é o maior segredo porque a cara boa, se é que existe, vem de dentro. Foi quando percebi o imenso desperdício de tempo no longo período em que me maltratei pela depressão gerada por algumas perdas. O tempo passa, a vida passa, as pessoas passam e o sujeito não nota nada. E, pagando o elevado preço do sofrimento, o cara sem uma cara boa aceita ajuda quase aos 45 do segundo tempo e descobre que o primeiro passo é tentar se amar mais. Porque é só depois disso que “todo o resto” começa a melhorar.

E aí você começa a enxergar quantos muros imaginários construiu no seu entorno e que se deixou cercar por fortalezas que parecem intransponíveis, mas que na verdade são fraquezas e inseguranças internas. Há pessoas que se fingem de fortes, mas são desmentidas pelos próprios olhos. Há pessoas que dizem que não amam mais, mas são desmentidas pelos próprios olhos. E fazem escolhas pelo sofrimento simplesmente porque não conseguem ver o que os próprios olhos estão mostrando.

“Filosófico” demais? Talvez sim, Talvez seja até uma “filosofia” barata. Mas o fato é que a gente inventa essas cercas monumentais pra não ver e enfrentar nossas muralhas internas, das quais é sempre mais fácil fugir e disfarçar com silêncio e uma falsa indiferença.

Quando existe amor de verdade no tal entorno complicado, fica melhor estender a mão, aceitar ajuda pra pular esses muros imponentemente imaginários e chegar ao outro lado vencendo os medos, as inseguranças e os traumas. E do outro lado você reencontra “a cara boa” e segue em frente, ainda que tenha que passar uns creminhos de vez em quando. Os olhos não mentem, entregam tudo. Estou com a cara boa, sim. E ainda vou ser tetraaaaaa!