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Ódio tinto de sangue

Haisem Abaki

23 de junho de 2017 | 11h21

Chico Buarque fez 73 anos na segunda-feira e o Rádio aproveita pra tocar a música Paratodos. Um ouvinte não gosta da “homenagem a um petralha” e manda um “vai cantar em Cuba, vagabundo”. Viva a liberdade de expressão da nossa tão maltratada e saqueada democracia!

Não foi no programa que apresento, mas poderia ter sido. E já não me incomodo mais com aqueles que, fanatizados por suas visões particulares, “xingam” o profissional da vez no microfone de petralha, tucanalha, golpista, coxinha, mortadela, comunista, direitista, palmeirense, falso palmeirense, árabe, terrorista, muçulmano, defensor de baderneiro, defensor da polícia do Alckmin…

Só citei as “minhas” contraditórias qualificações. Já fui chamado de tudo isso (até de falso palmeirense!) por gente que julga e condena da maneira que mais lhe convém, seguindo aquela convicção egoísta e preconceituosa de que só a própria panelinha faz comida boa. Ainda bem que é apenas uma minoria.

E ainda bem também que não tenho mais o pavio curto dos 20 e dos 30 e poucos anos. Com mais de 50, ou você releva ou não tem mais salvação e vai virar um velho resmungão e de mal com a vida. O que me espanta é que entre os patrulheiros de plantão (dos dois lados) e do discurso repetido como papagaio tem gente “nova”, pelo menos na idade.

Penso que o cérebro, o coração e a alma ainda podem estabelecer algumas conexões que nos deixem ir além da visão torta das torcidas organizadas. Dá pra gostar das músicas do Chico e não aprovar o apoio dele ao Lula. Eu posso duvidar do cara que se diz a alma mais honesta deste país sem que para isso precise destruir Construção ou matar Roda Viva.

Também dá pra estranhar que o “free boy” não tenha citado o Lula na delação e na entrevista. Mas isso não quer dizer que o Temer é automaticamente inocente. Da mesma forma, dá pra apoiar a Lava Jato e não gostar do espetáculo que ela faz. Criticar o show não é o mesmo que aprovar a corrupção. Que cada um tenha o direito de opinar e de defender o seu malvado favorito até onde a consciência e a santa ingenuidade permitirem.

E nessa reflexão forçada me veio a lembrança de um dia em que eu estava com uma camisa verde (que não era do Palmeiras) e passei na porta de uma loja do Corinthians olhando a vitrine. Lá de dentro, um vendedor me olhou com cara feia. Segui o meu caminho sem me importar. Mas e se eu quisesse entrar pra comprar um presente de aniversário para um amigo? Seria proibido?

Pensei em pessoas que têm alguma importância na minha vida e me propus um exercício de “fanatização”. E vi que meus dias seriam um tédio se meus amigos fossem exclusivamente das seguintes “categorias”: árabe ou descendente, muçulmano, palmeirense, branquelo sabão em pó como eu, entre outras que nem vale citar. Pai, afasta de mim esse cálice! Mas não quero dizer “cale-se!” a ninguém. E a gente vai se amando, que, também, sem um carinho, ninguém segura esse rojão… Adeus, meu caro amigo!

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