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Odete Roitman e o nosso eterno isolamento

Haisem Abaki

27 de março de 2020 | 09h40

Do meu isolamento de (até agora) uma semana, começo a ouvir vozes poderosas contra tal recomendação médica e científica. Vozes do piloto paraquedista do avião que nos conduz para um destino incerto, de empreendedores que se gabam de suas histórias de sucesso contra tudo e contra todos e de celebridades midiáticas, algumas instantâneas e outras incrivelmente duradouras, mas aceitáveis em uma sociedade que prioriza a forma e a aparência e detona o conteúdo.

De todos vem uma pregação sem argumentos, baseada em dogmas e mantras do capitalismo de resultados que é bom pra todo mundo. Agora estão eles, repentinamente, preocupados com os pobres que ficarão desempregados depois da pandemia.

Ah, mas antes de o vírus baixar por aqui já tínhamos 11,6 milhões de desempregados e 26,2 milhões de pessoas no desvio, subutilizadas ou simplesmente desalentadas. Então, já eram quase 38 milhões de isolados socialmente sem a pandemia ignorada pelos “negacionistas virais” e seus seguidores milicianos digitais.

E da minha janela lateral com vista para uma praça que agora representa o meu mundo, todas aquelas vozes me pareceram familiares, ecoando uma só voz. Do comandante de live de Facebook ao hamburgueiro chique. Do condutor de reality show ao minimizador da escravidão. Do super-herói dono de megaloja à atriz de tantos papéis. Dos homens de negócios religiosos preocupados com o dízimo aos muito bem empregados em um gabinete cheio de ódio. Todas as vozes eram apenas e tão somente de Odete Roitman.

Talvez tenha sido a praça vazia a me dar a sensação de eco. Ou talvez já tenham sido os efeitos do distanciamento que me deu saudades de fotos antigas e me fez mexer em livros amarelados. Não importa. O fato é que representantes do isolacionismo histórico de “gente de segunda classe” em nossa terra agora estão preocupados com o tal isolamento social. Até notaram que existem favelas!

Odete Roitman, vivida pela saudosa Beatriz Segall, tinha uma visão única deste país. “Eu gosto do Brasil. Acho lindo, uma beleza. Mas de longe. Só em cartão postal”. E agora, subitamente, nossas “odetes” de sempre estão incomodadas com o isolamento que prejudica seus planos de poder e permanente conflito, além de seus vultosos negócios que dão empregos, generosamente, aos pobres.

E o ápice dessa “odetização” (pelo menos até este momento, já que sempre dá pra piorar), é ouvir o guardião que jurou promover o bem geral do povo dizer que o brasileiro precisa ser estudado porque pula no esgoto e não pega nada. Nenhuma palavra sobre as crianças que morrem de diarreia por falta de saneamento básico, isoladas e esquecidas desde o nascimento.

A Odete da ficção, pelo menos, era verdadeiramente vilã. Dizia que gostava de chegar cedo ao aeroporto e ir direto para a sala vip, para se sentir em território neutro. E admitia claramente que falar do Nordeste antes do jantar lhe tirava o apetite. E queria que seus entes queridos estudassem fora, escapando de um diploma em tupi-guarani. Valia tudo pra ficar longe dos nativos jecas daqui.

Que o isolamento e a distância nos unam mais nas respostas adequadas às “odetes” agora docemente preocupadas com o futuro da Nação e que só querem manter o vale-tudo, este sim, altamente contagioso. O jeito é ainda tentar respirar fundo e se proteger com calma e sem paranoia, tá ok? Ouvindo médicos e cientistas. E não os isolacionistas temporariamente convertidos à “solidariedade”. Para eles, Brasil, não mostra a tua cara!

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