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O voto na frigideira

Haisem Abaki

01 Julho 2016 | 11h28

Na praça de alimentação, quatro amigos participavam de um animado almoço, falando alto. Foi só por isso que percebi, já que não sou enxerido. Fiquei impressionado com o conteúdo da conversa. Não era sobre a Copa América, o Dunga ou o Tite. Nada de Euro também, cheia de surpresas como a Islândia e o País de Gales. E nenhuma menção ao Campeonato Brasileiro.

Falavam sobre outra disputa: a eleição municipal. Fiquei perplexo. Que país é esse em que estamos vivendo? Tem bola rolando na TV o dia inteiro e os caras nem aí, apenas preocupados com o futuro da capital paulista? Prestei atenção pra ver se não haveria outro tema. Alguma piada infame, talvez. Nada! Só eleição, sem dó nem piedade dos candidatos.

Peguei a conversa andando, mas logo deu pra perceber que discutiam a falta de opções. A seguir, reproduzo alguns trechos sem paixão, ódio ou qualquer outro interesse. Sou caipira e não tenho domicílio eleitoral paulistano. Apenas trabalho muito e volto pra dormir em outra cidade. A única edição que faço nos diálogos é para retirar alguns palavrões com o nobre objetivo de não macular a nossa política, feita de maneira tão pura, ingênua e desinteressada.

– No PT, depois dessa roubalheira toda, eu não voto mais.

– Mas os outros também roubam. Todo mundo rouba.

– Por isso que eu só voto nulo.

– Eu votei no Haddad, mas não voto mais. A cidade tá largada. Ele só sabe pintar ciclovia.

– E o Russomano? Nesse também não dá pra confiar.

– É, mas a Marta de novo também não dá.

– Tem a Erundina. Pelo menos parece que é honesta.

– Pode ser honesta, mas é muito radical. Pra mim é tudo PT ainda.

– Mas em tucano eu também não voto. Quem é o candidato deles?

– Aquele João Dória, que anda todo arrumadinho.

Fiquei embasbacado. Questões morais, ideológicas e até de moda numa mesma argumentação! E todos os caras ali, definindo o “sim” a alguém com base no “não”. Viva a democracia por exclusão!

Terminei e quando estava de saída notei uma semelhança entre os quatro amigos, além do desencanto amplo, geral e irrestrito. Eram da elite dominante reclamando de barriga cheia. E a prova estava no prato. Todos comiam feijão. Só os ricos podem ter feijão à mesa neste país com “presidenta” e “presidento”.

Eu? Eu fiquei na coxinha. Refiro-me somente ao aspecto gastronômico e não à atual rotulação ideológica dessa delícia dourada e crocante. Se bem que isso não faz a menor diferença. Com as boas intenções suprapartidárias dos formadores de panelinhas, estamos f… fritos. Somos todos coxinhas! Só muda a frigideira.