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O vírus da impaciência

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h37

Publicado pela 1ª vez em 23/05/2008
Febre, dor de cabeça, suor, calafrios. Com tantos avisos de uma vez só, fui obrigado a ir ao médico. Fui já sabendo do diagnóstico. Todas as pessoas que me viram naquele dia apontaram que era “uma virose”. Concordei porque, como “especialista”, já disse o mesmo a amigos em estado de prostração. Somos todos entendidos no assunto, mas decidi buscar ajuda profissional depois do fracasso da auto-medicação.
Detesto consultórios. Para passar o tempo, evito olhar para o relógio. O problema é que quase sempre ele está lá, imponente, em local de destaque, como se estivesse a nos dizer:
– Aguenta firme, é apenas uma dorzinha e só vai demorar mais um pouquinho.
Nesse dia, não foi diferente. Como os “minutinhos” se acumulavam, comecei a prestar atenção na TV, posicionada em local propício para um torcicolo. O programa exibia uma longa reportagem sobre… erros médicos. Não poderia haver lugar melhor para um tema como aquele. Aos poucos, os pacientes impacientes com a espera começavam a prestar atenção, num misto de curiosidade e desconforto.
Uma funcionária percebeu a situação e mudou de canal. Apareceu um monte de gente sarada praticando esportes radicais. Também não combinava com o ambiente, mas era menos assustador do que a atração anterior, sobre materiais cirúrgicos esquecidos “dentro” de pacientes.
De repente, alguém tosse compulsivamente. O som domina o ambiente e a TV parece ficar muda. A pessoa se controla e, na tentativa e de justificar, olha para o “impaciente” mais próximo e diz:
– Isso é virose das bravas…
Alguém sai lá de dentro tossindo e espirrando e começa uma sinfonia de “cofs, cofs” e “atchins” que parece não ter fim. A médica surge na porta e convida o próximo “impaciente” a entrar. Ainda deu pra ouvir o “boa tarde” dos dois, rouco do que entrava e anasalado do que deixava o consultório.
Com tanta gente entrando e saindo, até me senti no direito de fazer piada da desgraça com a “impaciente” ao lado, que após alguns minutos de espera já parecia me conhecer desde sempre e havia feito uma lista de parentes que estavam “com virose”:
– Desse jeito, quando eu entrar lá, vou ficar doente.
Resolvi relaxar e esvaziar a cabeça lendo uma revista de celebridades, bem típica de consultórios. Quando já estava prestes a saber como iria terminar a novela das oito, chegou a minha vez. O diagnóstico não me surpreendeu. A médica me atendeu bem, explicou que haveria um período de incubação do vírus, passou uma receita e me recomendou dois dias de repouso. Peguei o atestado e… fui trabalhar nos dois dias seguintes, mas voltei para casa mais cedo.
Finalmente chegou o fim de semana e… fui parar no hospital. Na emergência, o médico me perguntou o que havia acontecido. Antes de contar todo o ocorrido, fiz um breve resumo:
– Parece que levei uma surra.
Soube então que o vírus danado tinha se instalado no pulmão e precisava ser combatido com antibiótico, descongestionante e inalação. E o principal: pelo menos dois dias de molho absoluto em casa e com muita sopa.
Adoro sopinha, mas não quando estou doente. Adoro ficar em casa, mas não quando estou doente. Sou muito tranquilo, mas não quando estou doente.
Mesmo contrariado, fiz tudo direitinho e descobri meu verdadeiro mal: o vírus da impaciência. Encontrei a cura pedindo abraços e beijinhos em casa e trocando e-mails com amigos, basicamente abordando três assuntos: bobagens, bobagens e bobagens. Santos remédios!
……
Os últimos dias foram tristes com a perda de um amigo, Antonio Carvalho. Ele merece todas as homenagens, mas é hora de esperar um pouco mais para que as boas lembranças aflorem. E serão muitas, porque o “vozeirão suave” era uma pessoa simples e divertida, que transbordava otimismo e bom humor. Descanse, companheiro.

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