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O verdadeiro papel da lista

Haisem Abaki

24 Fevereiro 2013 | 15h05

Publicado pela 1ª vez em 11/10/2008
No mercado editorial, a bola da vez é vender livros de listas. Sempre fui chato com os modismos, mas hoje em dia dificilmente se escapa deles. É tanta informação que, mesmo que você não se interesse por um assunto, lá está ele, à espreita. Quando você menos espera, já pulou no seu colo.
Na primeira vez que vi na Internet essa história de livro de listas, logo pensei:
– Lista? Tô fora!
Começou então a minha frustrada tentativa de ficar longe disso. Não comprei nenhum livro sobre o tema. O mais famoso, o tal “Cem Coisas para Fazer Antes de Morrer”, sugeria ao leitor ir a uma festa do Oscar, ver uma cerimônia de vodu no Haiti e correr de touros em Pamplona, entre outras coisas. Agora é sucedido por outros que vão na direção contrária, indicando coisas para não se fazer antes de morrer. Como eu fiquei sabendo mesmo sem ler? Internet, TV, Rádio, gente comentando em rodinhas e fazendo as próprias listas… Fujo para um lado, corro para outro e não adianta. De repente, o assunto aparece do nada na minha frente:
– Oiêêêêêê!!!
É o chamado “efeito Big Brother”. Foi a explicação que encontrei quando as pessoas achavam que eu era telespectador do famoso programa. Sempre tive respeito pelo gosto de cada um, mas a cada nova edição, eu mudava de canal ou ia dormir. Apesar disso, sabia quem ia para o paredão, quem “pegava” quem e quem apareceria pelada na revista. Não adiantava fugir porque o assunto sempre saltava, do nada, à minha frente:
– Oiêêêêêê!!!
Não tenho nada contra as listas. Acho que elas são úteis em muitos momentos do dia-a-dia, como para ir ao supermercado, comprar o material escolar dos filhos, agendar as atividades e tarefas do trabalho, fazer as contas do mês. Enfim, elas têm muitas utilidades. Podem até ajudar na educação de uma criança, incentivando o senso de organização dela.
Até aí, tudo bem. O que me incomoda nessas listas de condutas é a burocratização do sentimento, dos sonhos, do caráter e das coisas mais simples da vida. Será que as pessoas precisam mesmo disso? O pior é que precisam porque nem sempre enxergam que o que temos de melhor já está ali, tão perto. É só prestar atenção em volta que dá pra ver e ouvir:
– Oiêêêêêê!!!
Resolvi, então, cair em contradição. Comecei a fazer uma lista, mas só para mim e não para os outros. Não tenho vocação para ser Moisés em Os Dez Mandamentos. Nossa, eram só dez e agora precisamos de cem! Eis as minhas orientações para este ser que habita em mim mesmo:
– Faça mais cócegas nas crianças.
– Pare de fazer cócegas nas crianças quando elas não quiserem mais.
– Dê muita risada quando as crianças contarem como se fossem novas as piadas que você já conhece desde criança.
– Dê um abraço bem apertado e um longo beijo no seu amor.
– Vá mais vezes ao cinema e saia para jantar depois.
– Fale muita besteira até cansar, descanse um pouquinho e fale mais besteira.
– Tenha fé, acreditando que tudo vai melhorar, mas não tenha apenas fé.
– Trabalhe bastante, mas perceba que trabalhar não é o bastante.
– Diga Bom Dia pela manhã, Boa Tarde à tarde e Boa Noite à noite.
– Aventure-se na cozinha, suje muitas panelas e… vá dormir (tá bom, se der eu lavo antes de deitar).
Resolvi parar por aqui. Tenho material para muito mais, mas se ficar escrevendo não terei tempo para cumprir os dez itens acima. Afinal, tem gente bem pertinho à minha espera dizendo:
– Oiêêêêêê!!!
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Na semana passada, contei uma história do meu amigo Caiã Messina, repórter da Rádio Bandeirantes no Congresso Nacional. Ele pegou no pé do deputado Vilson Covatti, do PP gaúcho, que demitiu dois cunhados e contratou as mulheres deles. A esperteza foi para driblar uma determinação do Supremo Tribunal Federal, que proíbe o nepotismo. Ao tirar os cunhados da lista de funcionários e colocar as concunhadas, ele estaria cumprindo a lei. Mas a divulgação da reportagem do Caiã fez o parlamentar recuar e acabar com o jeitinho, demitindo as recém-contratadas. Abaixo, reproduzo o último diálogo entre Caiã Messina e o deputado Vilson Covatti, que começa a conversa tentando se explicar:
– Não foi nenhum jeitinho. Não é de uma hora pra outra que você vai substituir uma mão-de-obra de 13 anos e meio, né?
– Não vai ser nenhum outro parente… primo de quinto grau…amigo da mulher, nada disso não…
– Não, não porque eu nunca cometi nenhuma contratação pra beneficiar alguém. A minha contratação foi sempre no sentido de qualificar o serviço público.
– Não tem outras pessoas qualificadas que não os seus cunhados ou as suas concunhadas?
– Olha, é uma questão agora de tempo pra analisar e pra buscar…
– Tem 14 milhões de desempregados no Brasil, deputado…
– Agora, tu imagina, é… tu te coloca, é… no meu lugar. Preparar 13 anos e meio uma mão-de-obra, é… qualificada…
Assunto encerrado, pelo menos por enquanto. Sei que o Caiã vai ficar de olho. Recomendo a ele que apareça de vez em quando diante do parlamentar dizendo:
– Oiêêêêêê!!!