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O turco e o chinês

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h22

Publicado pela 1a vez em 28/03/2008 10:00:00
– Bom dia, turco. Como vai?
– Bom dia. Eu vou bem, graças a Deus, mas não sou turco. Eu sou sírio!
A cena passou pela minha cabeça por acaso, enquanto buscava um caminho para fugir do trânsito lento. Eu não estava na Marginal do Tietê. Também não era a 23 de Maio, nem a 9 de Julho. Quando passo por esses lugares e vejo que está tudo parado, relembro os tempos de “repórter aéreo” e procuro as alternativas que costumava sugerir aos ouvintes.
Mas desta vez meu velho companheiro de São Paulo, o congestionamento, me pegou no centro de Mogi. Vi tudo parado na Rua Braz Cubas e desisti de seguir em frente, na direção da Barão de Jaceguai. Subi a Professor Flaviano de Melo e, perto da esquina com a Moreira da Glória, revi a cena da infância ao passar na porta da lojinha que um dia foi “do turco”. Voltei no tempo e virei criança de novo.
Lá, aprendi a ouvir rádio em volume alto, num aparelho grande, que não parava de chiar. O “turco” já começava a sentir os primeiros efeitos da surdez e os vizinhos também eram obrigados a ouvir as transmissões. Eles não entendiam nada, mas eu já conseguia compreender aquela língua enrolada. Era o noticiário em árabe, que chegava pelas ondas curtas.
Eu ainda não sabia, mas eram tempos difíceis por aqui. De vez em quando, passava um militar e perguntava “o que o rádio estava falando”. O “turco” não se amedrontava. Respondia com firmeza e flexibilidade ao mesmo tempo, sem deixar de sorrir e olhar fixamente para o inquiridor:
– São notícias do Oriente Médio, da minha terra.
Logo começava uma conversa que eu não entendia muito bem, sobre palestinos sem pátria. O “turco” tinha o dom da palavra, era convincente e, apesar da gravidade do assunto, sempre encontrava um jeito bem-humorado de se expressar. Aos poucos, o militar ia desfazendo a cara de desconfiado. Virou freguês, literalmente.
Não havia carrancudo que resistisse ao simpático “turco” sem abrir um sorriso, por mais disfarçado que fosse. Assim era com um fiscal que aparecia de vez em quando. A chegada dele provocava alvoroço entre os comerciantes e logo todos já estavam avisados. O “turco” ria do alerta e separava todos os livros contábeis e notas fiscais. Deixava a papelada em cima do balcão à espera do visitante. Depois de conferir e ver que estava tudo certo, o fiscal sempre ouvia alguma brincadeira do “turco” e desfazia a cara de bravo.
Um dia o fiscal chegou na hora errada. O segundo filho do “turco” havia acabado de nascer e ele não teve tempo de separar os documentos. Na verdade, estava fechando a loja para ir ao hospital. O fiscal estranhou aquela correria, mas abraçou o “turco” e foi embora depois de ouvir uma proposta inusitada:
– O meu filho acabou de nascer. Por favor, fica com a chave, confere tudo, fecha a loja e deixa a chave com o meu vizinho.
Ele era assim com todo mundo. Um dia, já entendendo a situação, fiquei na dúvida se os fregueses iam lá para comprar e acabavam conversando ou se iam para conversar e acabavam comprando. O “turco” achou graça:
– As duas coisas, a vida não vale nada se a gente não tem amigos.
Mas havia uma pessoa que o fazia perder a paciência. Era um homem de olhos puxados que passava de vez em quando e sempre repetia a mesma ladainha:
– Bom dia, turco. Como vai?
– Bom dia. Eu vou bem, graças a Deus, mas não sou turco. Eu sou sírio!
O homem insistia:
– Sírio, libanês, turco… É tudo a mesma coisa, né?
Com muita calma, ele dava uma aula de história sobre a dominação do Império Otomano no Oriente Médio até chegar aos passaportes dos imigrantes árabes emitidos com o carimbo de “turco”.
O sujeito não se convencia, sabia que estava sendo chato e insistia cada vez mais.
Um dia, sem perder o bom-humor, o “turco” acabou com aquilo:
– Bom dia, turco. Como vai?
– Bom dia. Eu vou bem, graças a Deus. E você, chinês, como vai?
– Eu não sou chinês, sou japonês!
– Japonês, chinês, coreano… É tudo a mesma coisa, né?
Os dois riram e nunca mais o japonês chamou o sírio de “turco”.
Ainda consigo vê-lo contando um monte de casos e dando lições de como falar com firmeza e flexibilidade ao mesmo tempo, sem deixar de sorrir e olhar fixamente para o interlocutor.
Uma vez, a ouvinte era a netinha dele, minha filha. Ele quis ter certeza de que ela havia compreendido direitinho a história do “turco” e do “chinês”:
– Entendeu, turquinha?
– Entendi, vô.
Eu também entendi que é possível ser firme e flexível ao mesmo tempo, sem deixar de sorrir e olhar fixamente para as pessoas. Não é, “turco”?

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