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O terremoto nosso de cada dia

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h30

Publicado pela 1ª vez em 25/04/2008
Vinte e dois de abril de 2008, nove da noite. Estava diante do computador, com o rádio e a TV ligados. Da cozinha, minha mulher pedia que eu não deixasse as barulhentas crianças que brincavam na sala acompanharem a cena do assassinato do Juvenal Antena. Senti uma tontura. Parecia que a mesa havia se mexido.
– Acho que estou cansado, preciso dormir.
Minha mulher também notou um balanço na pia novinha, trocada recentemente.
Na sala, as crianças estavam sentadas sobre o tapete, falando alto e brincando com um novo joguinho. O caçula estava irritado com a mais velha, que não o deixava ganhar. Eles já se mexem muito por natureza e nada sentiram.
Assim foi nosso primeiro – e tomara que o último – terremoto. Só percebemos o que havia acontecido quando o rádio e a TV começaram a falar sobre o assunto. Muita gente resolveu sair do prédio e ficar na rua. Não descemos e acabei entrando no ar duas vezes, junto com outros colegas que de vários pontos relatavam o que havia ocorrido. Logo vi que o dia seguinte seria agitado, mas os 5,2 graus na escala Richter não deixavam o sono chegar.
Aos poucos, percebi que era só mais um tremor, diante de tantos outros que nos atormentam rotineiramente. Então, fiz a minha própria escala com algumas notícias daquele dia.
O Paraguai quer cobrar mais pela energia de Itaipu: 3,5 graus.
A dengue se alastra pelo Rio de Janeiro: 4,7 graus.
O MST bloqueia mais uma rodovia: 5,3 graus.
A CPI dos Cartões tem acesso aos gastos sigilosos da Presidência: 6,4 graus.
Os países ricos estão muito preocupados com a falta de alimentos nos países pobres: 7,6 graus.
O presidente Lula fica muito bravo com os países ricos: 8,3 graus.
Mais uma ressurreição do Juvenal Antena: 9,1 graus.
George W. Bush, com cara de paisagem, dança jazz num evento político: 9,9 graus.
Dormi pouco, mas acordei bem disposto no dia seguinte. No caminho para o trabalho, fiz um exercício de jornalismo que costumo recomendar aos meus alunos.
Parei na padaria às 5 e meia, pedi café com leite e pão com manteiga e fiquei quieto, bem quietinho, só ouvindo.
O horário, apesar do sono, é propício porque balconistas e fregueses costumam conversar muito e falar mais alto.
Já na primeira mordida e no primeiro gole, percebi que o tremor de terra seria o principal assunto do dia. Pelo segundo lugar, havia uma disputa acirrada entre os dois temas dominantes da véspera: o “apimentado” clássico Palmeiras e São Paulo e o trágico caso da menina Isabella. Para este último, não há escala capaz de medir a intensidade da tragédia.
Abrimos o Primeira Hora com o terremoto de verdade, mas fizemos rápidas escalas em outros abalos. Depois, soube que a tubulação entortou e 20 mil pessoas ficaram sem água em Mogi. Uma fiel que estava numa igreja da cidade pensou que era o fim do mundo, mas logo foi confortada pelo pastor e manteve a fé inabalável.
Em Campinas, um “sortudo” estudante de geologia construiu um sismógrafo de fundo de quintal e o instalou no banheiro. Ali, pertinho da privada, o aparelho registrou seu primeiro tremor, e justamente “neste país”.
Nosso ministro da Ciência e Tecnologia apareceu dizendo que precisamos investir na detecção de terremotos. Que venham os sismógrafos, mas não acredito muito. Sou meio cismado mesmo.

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